Review | Quinze Dias manteve a sua essência

Review | Quinze Dias manteve a sua essência

Quinze Dias” estreou no cinema agora dia 18 e eu sou provavelmente a pior pessoa possível para avaliar a adaptação. Li o livro pouco depois de quando ele foi lançado, acompanho o trabalho do Vitor Martins desde então e tenho um carinho enorme pela história. Então, quando os créditos subiram, eu me vi fazendo uma pergunta que demorou um pouco para responder: eu gostei do filme ou só fiquei feliz de ver Quinze Dias existindo na tela?

Eu sei, eu seeeei que não adianta a gente querer ver o filme achando que vai ser igualzinho ao livro. Mas Quinze Dias foi o meu “Heartstopper” antes de “Heartstopper” sair, sabe? É aquele livro que te deixa com um quentinho absoluto no coração, que te faz criar um apego com o autor e saber que você vai ler até a lista de compras dele, se ele resolver vender uma versão diagramada e encapada.

Foto/Reprodução: Dani Goldenberg.

Desabafo feito, vamos falar do filme e (tentar) segurar a onda nas comparações entre as duas obras. Eu entendo totalmente as mudanças que foram feitas e concordo que a essência foi mantida. Tudo o que era importantíssimo continuou ali, e isso também tem bastante valor.

Para quem nunca leu o livro, Quinze Dias acompanha Felipe, um adolescente gay, gordo e extremamente tímido que vê as férias escolares como a oportunidade perfeita para fugir do bullying, se esconder do mundo e passar um tempo em paz entre livros, séries e filmes. Só que os planos vão por água abaixo quando sua mãe anuncia que Caio, o filho da vizinha e sua paixão de infância, vai passar justamente aquelas duas semanas hospedado na casa deles. O que começa como uma convivência forçada acaba se transformando em uma jornada de autodescoberta, inseguranças e sentimentos que talvez nunca tenham ido embora de verdade.

Foto/Reprodução: Quinze Dias

Uma das coisas que mais me surpreendeu positivamente foi Diego Lira como Caio. Sério, estou apaixonada por ele, juroooo, que querido! Talvez porque, de todo o elenco, ele tenha sido quem mais se aproximou da imagem que eu carregava na cabeça desde a leitura. Tem um carisma muito natural ali, daqueles que fazem você entender imediatamente por que Felipe passou tanto tempo gostando dele. Becca (Mika Soeiro) e Melissa (Bel Moreira) também funcionaram muito bem para mim. Foram personagens que pareciam ter saído diretamente das páginas do livro e ajudaram bastante a preservar aquela familiaridade gostosa que eu procurava durante a sessão.

Já o Felipe (Miguel Lallo) foi uma experiência mais complicada para mim. E aqui entra um pouco o problema de adaptar personagens que a gente ama demais. Confesso que não me conectei tanto com a escolha do ator para o papel. Não é que ele faça um trabalho ruim, e muito pelo contrário, ele é ótimo! Mas eu demorei a enxergar ali o Felipe que existia na minha cabeça, rolou mais pro fim do filme. Dito isso, essa é uma opinião completamente pessoal e (de certa forma) até injusta, e provavelmente resultado do apego falando mais alto.

Foto/Reprodução: Quinze Dias

E entrando nas ressalvas com a adaptação, algumas mudanças me pareceram quase drásticas. A principal delas foi transformar uma dinâmica que originalmente era muito mais próxima de um strangers-to-lovers em algo que cabia mais em enemies-to-lovers. No livro, existe uma distância entre Felipe e Caio porque a vida simplesmente os afastou. No filme, existe um estranhamento que não estava lá, umas farpas trocadas que me deixaram questionando “mas para quê???” e algumas mudanças nas características dos personagens que fizeram falta pra mim. Nada disso impede o filme de funcionar, mas mexe justamente em aspectos que eu adorava na obra original.

Por outro lado, como filme e/ou primeiro contato com a obra, Quinze Dias funciona muito bem. O ritmo é ótimo, a história flui com facilidade e existe um charme muito próprio nessa mistura de romance adolescente, inseguranças e descobertas. Em vários momentos, ele me lembrou por que tantas pessoas se apaixonaram pelo livro em primeiro lugar.

E preciso falar da Débora Falabella (magnífica sempre). A Rita é uma personagem que tem gostinho de conforto e tudo nela dá vontade de ser amiga do Felipe pra frequentar a casa deles. Ela traz uma energia acolhedora para a história e consegue equilibrar humor, afeto e preocupação materna de um jeito extremamente natural. É o tipo de personagem que ajuda a deixar o filme ainda mais quentinho e a gente desejando que todo mundo pudesse ter uma mãe que nem ela.

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A única vez que chorei não foi por causa do roteiro. Foi quando Vitor Martins apareceu em cena. Naquele momento, deixei de pensar no filme e só consegui pensar em tudo o que aquela história conquistou desde que foi publicada. Pra quem não sabe, o livro ganhou até uma versão traduzida pro inglês (com o título “Here the Whole Time”). E sim, eu morro de orgulho de um autor nacional que eu vi umas poucas vezes na vida, porque a gente sabe o quanto é difícil conseguir alcançar esse grau de reconhecimento.

Como filme, Quinze Dias funciona. Como adaptação, talvez eu precise de mais tempo para processar. Algumas mudanças me afastaram justamente das partes que eu mais amava no livro. Ainda assim, é impossível não ficar feliz vendo uma história LGBTQIA+ brasileira tão querida chegar às telas. E então, talvez o meu problema não seja com o filme. Talvez seja só que eu ame demais o livro.

De qualquer forma, quer você tenha lido o livro, quer não, ainda acho indispensável uma passadinha no cinema. Primeiro, porque é uma obra nacional ganhando vida nas telonas, e isso sempre merece ser celebrado. Ainda mais em um momento tão importante para o reconhecimento do cinema brasileiro. E segundo, porque é uma forma de lembrar que existe, sim, espaço para romances nacionais, adolescentes e LGBTQIA+ no coração do público.

No fim das contas, talvez essa seja a maior vitória de Quinze Dias. Fazer com que mais pessoas conheçam uma história que, anos atrás, já tinha conquistado um lugar muito especial no meu coração.

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Dani Goldenberg

Sou formada em Letras e passei 9 anos trabalhando em escolas, mas fugi para o marketing, então agora sou gerente de projetos, o que geralmente significa "babá de adultos". Meu quarto tem livros demais e eu tenho esperança de que um dia vou ler todos. O dinheiro que não vai para eles costuma virar ingresso de show, viagens, comida boa e qualquer coisa relacionada a gatos. Minha vibe é 50% gótica e 50% princesa do glitter, estou aprendendo a ler tarot e sou uma cantora de chuveiro extremamente dedicada. Minha personalidade foi moldada por filmes dos anos 2000, Disney Channel e pelos livros da Meg Cabot, especialmente A Mediadora. Meu traço tóxico é discutir com pessoas que eu conheço para defender pessoas que eu não conheço, então fica o aviso: nunca fale mal da Pink perto de mim.

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