- por Nathalia Souza
Em coletiva de imprensa no Anime Friends 2026, o dublador Wendel Bezerra – voz brasileira de Goku (Dragon Ball), Bob Esponja, Pain (Naruto), Sanji (One Piece) e diversos outros personagens – respondeu perguntas sobre sua carreira, os bastidores da dublagem e os desafios da profissão. Confira os melhores momentos.
Sobre dublar o Bob Esponja há mais de 25 anos
Como você se sente sendo a voz do Bob Esponja por mais de 25 anos e ainda assim fazendo direção de dublagem?
“Em função da minha outra atribuição de alguns anos, que é administrar um estúdio e tocar uma empresa com mais de 50 pessoas e vários clientes, fica absolutamente impossível ficar preso dentro do estúdio. Mas o Bob Esponja é um barato, é muito engraçado, me divirto até hoje. Acaba com a minha voz, fico sempre preocupado quando chega – às vezes atraso a entrega dos episódios por ter ficado rouco ou algo assim. Mas é um grande orgulho poder dar voz a um personagem internacionalmente conhecido, que faz sucesso em todos os países e faz parte de várias gerações, inclusive os meus filhos gostam. Para mim é uma grande honra e felicidade.”
Sobre a dublagem de Ultraman
Como foi o processo de dublagem do Ultraman? Você já conhecia a série?
“Eu assistia quando era criança, bem pequeno, tenho flashes de Ultraman e de outras séries parecidas, então curti muito. O Glauco foi o responsável pela direção e foi um processo parecido com dublagem de videogame: os áudios vinham separados por canais dos personagens, eu ouvia a fala do meu personagem, tinha o texto ali e repetia mais ou menos do mesmo tamanho, não precisava ser exatamente igual, mas precisava ter a mesma duração, porque é um show coreografado dentro de um áudio. Foi muito legal, alguém me mandou um vídeo depois e achei sensacional poder fazer parte disso.”
Naruto: dublar um personagem antes e depois de virar fenômeno
Você dublou Naruto tanto no clássico quanto no Shippuden – no Shippuden é o Pain, e no clássico foram personagens adicionais como Kidomaru. Qual foi a diferença de dublar quando o anime ainda estava se consolidando e depois que virou uma marca gigante?
“No começo, as pontinhas que eu fazia eram uma coisa mais tranquila, eu ia lá, dublava e seguia o jogo. Já o Pain foi um pedido do público: em vários canais e redes sociais, as pessoas pediam para colocarem minha voz nele. O diretor topou, e eu já sabia disso, já tinha visto em posts.
Então você vai com mais receio, sabendo que existe uma responsabilidade, uma expectativa. A voz original do personagem, tanto em japonês quanto em inglês, é muito grave – um “vozeirão” mesmo – e eu não tenho essa voz. Fiquei ainda mais tenso, mas não tentei imitar a voz: fui na interpretação, no tom pesado, carregado, quase maldoso que ele tem, pensando na ideia meio maluca do Pain. Fui mais na entonação do que na voz.
Como demorou muito para eu entrar, o público já tinha ouvido a voz original em japonês ou inglês, então havia receio quanto à receptividade. Mas, em grande parte, foi muito bem recebido. Fazer parte de um projeto assim é uma bênção, e eu só tenho a agradecer.”
Próximos projetos
Quais são as novidades para os próximos meses?
“Acabou de sair Minions e Monstros, onde eu faço um dos monstros, o Phoenix. Vai sair e já posso falar porque já tem trailer: uma série com o Robert Pattinson, e tem novos episódios de Bob Esponja. Outras coisas eu ainda não posso falar, mas tem muita coisa acontecendo, graças a Deus, tanto com atores que dublo quanto com séries que já fazia.”
O que mudou na profissão ao longo dos anos
O que você sentiu que mais mudou na sua profissão ao longo dos anos?
“Uma das coisas que mais mudou foi a relação que a imprensa, o público e o marketing passaram a ter com os dubladores. A Netflix, por exemplo, dá cada vez mais visibilidade a esse trabalho, porque grande parte do público, às vezes 80%, dependendo do projeto até 98, assiste à obra dublada. As plataformas perceberam essa importância.
Agora mesmo, na campanha de Minions e Monstros, sou eu, o Briggs e o Manolo fazendo a divulgação como se fôssemos os próprios personagens. Acho que isso deu uma projeção e uma respeitabilidade maior ao trabalho da dublagem de forma geral.
Além disso, os próprios dubladores passaram a entender a importância da postura, do profissionalismo e da dedicação, porque o anonimato total permite que às vezes você relaxe. Mas quando percebem que tem muita gente prestando atenção, a postura muda. Isso trouxe mais profissionalismo ao mercado.”
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A cena mais difícil e os personagens do coração
Qual foi a cena mais difícil de dublar, e qual personagem tem um apelo emocional maior para você?
“A cena mais difícil que me lembro agora foi no filme Efeito Borboleta, com o Ashton Kutcher, numa cena em que ele grita o alfabeto grego na orelha de um personagem. Tive que decorar o alfabeto grego, sincronizar e ainda gritar – bem diferente de simplesmente falar as letras. Foi uma das mais difíceis.
Tenho muito carinho por vários atores. O Pierce Brosnan, que dublei pela primeira vez em Diário de Uma Paixão, adoro esse filme e essa dublagem. O Edward Norton é um ator que sempre fico feliz de dublar. O Sean Astin também e recentemente fiz um projeto de animação em que ele fazia a voz original, e me chamaram justamente porque era ele.
Mas o Goku é o personagem mais especial da minha vida. Mudou totalmente quem eu sou, minha carreira, meu posicionamento. É o personagem que, quando eu for para o túmulo, vai estar bordado numa bandeirinha comigo.”
Dublagem, voice-over e localização de games: qual é mais difícil?
Dentro das sub-áreas da voz – localização, voice-over, dublagem – qual é a mais difícil para você? (minha pergunta especial)
“Dublar é muito difícil porque você precisa interpretar dentro do ritmo da articulação e da inflexão que o outro já fez, e ao mesmo tempo fazer isso com naturalidade em português. É técnica com interpretação – duas coisas desconexas que a gente precisa conectar.
Mas a localização de games eu acho especialmente difícil, porque não existe vídeo, sua percepção precisa ser 100% auditiva. Todas as informações estão só no áudio, e não há réplica de diálogo, só as suas falas. Você precisa dar a emoção certa, porque, quanto mais próximo do original, melhor vai encaixar quando o vídeo for adicionado depois. Tem gente que acha que a falta de imagem facilita, mas eu discordo, os dois são muito difíceis, e o game tem esse desafio a mais de não ter a referência visual nem a réplica de quem contracena com você.”
As dublagens que mais emocionaram
Qual foi a dublagem que mais te emocionou de verdade, e não por causa de um encontro com fã?
“São tantas emoções. A primeira vez que o Goku morreu, eu não conhecia a série ainda e achei que ele tinha saído de vez, fiquei péssimo. Tem também um episódio do Cake Boss, o Buddy Valastro, em que ele conta que descobriu que a mãe dele estava com uma doença degenerativa, e chora contando isso. Eu chorei bastante também.
Tem um filme que dirigi, chamado A Vida em Si, que acho muito bonito, toda vez que eu contava a história para os protagonistas, eu chorava. E um filme mais simples, Amigos Imaginários, que acho muito poético, a mesma coisa acontecia. Até no último filme que dirigi, chorei contando a história e chorei dirigindo algumas cenas.
Eu me envolvo muito emocionalmente com o trabalho, tanto para alegria quanto para choro. Acho importante se envolver de verdade para que isso se reflita na dublagem.”
Como entrar na profissão
Qual é o caminho para se tornar dublador, independente da idade?
“Eu sempre digo que entrar para a dublagem é tão difícil quanto entrar para um grande escritório de advocacia ou se tornar dentista com clientela estabelecida, ou entrar para o cinema, fazer uma novela na Globo. Tem um caminho, tem suas pedras.
É preciso fazer teatro para conseguir o registro profissional (DRT). É importante fazer um curso de dublagem e não é obrigatório, mas ajuda a dar a experiência mínima; seria como começar na Fórmula 1 sem nunca ter dirigido um carro veloz.
Entrar em contato com diretores de dublagem costuma ser mais produtivo do que tentar falar direto com o estúdio, que é uma instituição grande e impessoal. E, na verdade, quanto mais velho, menos barreira existe, temos muitas vozes jovens, mas poucas vozes maduras, porque as pessoas vão envelhecendo ou infelizmente nos deixando. Sempre falta voz madura, tanto de homem quanto de mulher, e também vozes de criança, porque assim que a criança aprende a dublar bem, já mudou de voz para adolescente. É um ciclo que sempre precisa de reposição.”
Como preservar a voz
Quando você percebeu que queria seguir carreira em dublagem, e alguma dica para preservar a voz?
“Comecei a dublar aos 5 anos e nunca mais parei, mas também fazia teatro, TV, cinema, publicidade – tudo que um ator pode fazer. Foi por volta dos 22 anos que decidi focar em dublagem, porque era o que me deixava mais feliz. O que eu mais gostava era poder trilhar minha carreira única e exclusivamente com talento e capacidade e em outras áreas você às vezes precisa socializar demais, e isso me incomodava um pouco.
Isso não quer dizer que não seja importante fazer network e criar contatos profissionais. Mas se você não dublar bem, pode ser filho do dono do estúdio que não vai caminhar. Isso é o que mais gosto na dublagem: sendo bom no que faz e profissional, nada nem ninguém te impede de crescer.
Sobre preservar a voz: não sou a melhor pessoa para falar disso porque sou meio indisciplinado, mas é essencial cuidar como um atleta cuida do corpo, fazer exercícios vocais, ir ao fonoaudiólogo, fazer manutenção sempre. O certo é dormir bem, beber bastante água, fazer aquecimento vocal antes de gravar e relaxamento no fim do dia, evitar chocolate e café durante gravações, e importante saber gritar de verdade. Tem dublador que finge que grita, e isso não funciona: ou perde a voz rápido ou soa falso. Outros cuidados básicos: limpeza nasal pela manhã ajuda bastante, e quem tem desvio de septo pode considerar cirurgia.”
One Piece: Sanji no anime x live-action
Qual a diferença de dublar o Sanji no anime e no live-action?
“É bem diferente. No anime é tudo muito mais (voice) over, eu raspo a garganta em homenagem ao cigarro que ele fumava nas versões mais antigas. Já no live-action, tentaram deixar tudo mais crível, então o Sanji não é aquele exagerado quando se trata da Nami, por exemplo. É um tom bem mais normal, como um personagem comum falando. Essa é a grande diferença: um é bem humano, o outro é totalmente over e ainda inventei umas trejeitos extras para dar graça a ele.”
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Nathalia Souza
Artista, tradutora, animadora, programadora e ainda com formação em mecâtronica e marketing, sou uma menina que não sabe bem o que quer da vida. Emo de carteirinha, vivo indo em shows e eventos para aumentar minha coleção de memórias. Vivo no mundo da lua, e talvez seja por isso que me considero astronauta.
