Entrevista | Felipe Castilho

Felipe Castilho também está chegando pela nave da Aleph e é claro que eu não poderia de exaltar por aqui, esse autor que acompanho há tanto tempo, agora trazendo meu gênero favorito para as páginas.

Ver histórias nacionais tão grandiosas ganhando destaque nas prateleiras pela casa do sci-fi no Brasil é motivo de muita comemoração. Como eu acabei não conseguindo sair do Rio de Janeiro este ano para conferir a Bienal do Livro de SP de perto, precisei acionar novamente o meu esquadrão de elite.

As nossas correspondentes intergalácticas oficiais, Nath e Dani, foram até o evento com uma missão importantíssima. Elas não apenas garantiram o autógrafo no meu exemplar de A Besta (que chegou como um presentão incrível da própria Aleph!), como também levaram na bagagem algumas perguntas minhas para o autor. Eu precisava explorar um pouco mais dos bastidores dessa distopia biopunk e o Felipe Castilho foi extremamente solícito, atendendo a nossa tripulação com toda a atenção do mundo no meio da loucura do evento. Confiram abaixo como foi esse bate-papo!

Eu, Astronauta: Você consolidou seu nome na literatura fantástica e no horror com obras como Ordem Vermelha e Serpentário. Como foi o processo de adaptar a sua construção de mundo, geralmente baseada em magia e folclore, para o universo e os elementos de A Besta?

Felipe Castilho: “Para mim, não tem tanta diferença. É uma questão mais estética, eu acho. Eu começo a pensar os mundos e nem me preocupo se vai ser fantasia ou ficção científica. Acho que já tinha uma noção de que as editoras não procuravam tanto ficções científicas antes, então a minha cabeça ia sempre para a fantasia, mas eu sempre peguei elementos emprestados. Ordem Vermelha tem muito da ficção científica e do horror. Serpentário é um livro de terror, mas também é fantasia e um thriller. Acredito que são coisas que podem ser sobrepostas. Sabendo que eu iria publicar pela Aleph, já cheguei com um cenário solarpunk/cyberpunk inteiro construído, mas para mim não muda tanto. São as mesmas pecinhas reorganizadas.”

Felipe Castilho Bienal 2021
Eu, perturbando o Felipe lá na Bienal do Livro Rio de 2021

Eu, Astronauta: A Aleph é a grande referência de ficção científica no Brasil. Qual foi o impacto, em termos de pressão, conquista e liberdade criativa, de desenvolver e lançar um épico nacional inédito de sci-fi por uma editora com esse legado?

Felipe Castilho: “Eu sempre fui leitor da Aleph, é uma das minhas editoras favoritas. Acho que as minhas grandes influências estão todas aqui, pelo menos 90% delas. Eu nunca pensei que eles chegariam a falar: “Ah, vamos publicar nacionais”. Isso parecia tão distante que minha cabeça estava focada em tentar um juvenil ali, uma fantasia ou um horror acolá, mas na Aleph eu nunca havia pensado. Então, o convite foi uma coisa que eu nem pensei muito. Falaram: “Ah, quer olhar o contrato?”, e eu: “Não quero olhar contrato, já sei que eu quero!“. Foi muito insano, para mim foi um alinhamento muito correto.

Pressão eu já não sinto tanto assim, porque eu gosto do que faço e preciso desses momentos. Fico esperando o encontro com os leitores — a Bienal é um dos momentos mais felizes do ano para mim —, então acho que fico mais ansioso. Mas a responsabilidade é grande, porque tenho visto que as ficções científicas nacionais estão sendo a porta de entrada para muita gente que está dando uma chance para o gênero agora. Por muito tempo o mercado martelou que ficção científica brasileira não vendia, que não era muito legal ou que tinha complexo de vira-lata, e acho que agora o pessoal vai perceber que não é bem assim. A responsabilidade é imensa, mas eu estou matando no peito.”

Autógrafo Felipe Castilho - A Besta
O autógrafo no meu exemplar de “A Besta”.

Eu, Astronauta: Explorar os “limites da biologia” e a busca pela imortalidade exige certo embasamento. Como foi a pesquisa técnica para garantir que a ciência da trama soasse assustadoramente plausível?

Felipe Castilho: “Exigiu muita pesquisa. Acho que passei muito mais tempo pesquisando do que escrevendo, de fato. Na verdade, tenho certeza. A escrita foi muito mais rápida do que a pesquisa. Como a construção de mundo se passa no nosso mundo, mas no futuro, você precisa dar um tiro longo. Eu criei toda uma timeline de hoje até 2168. Isso envolve muito o exercício social de entender a política no mundo, a geopolítica, a geologia, e ficar pensando em como essas coisas vão estar a curto e longo prazo para estruturar a linha do tempo desse livro.

Toda a parte científica e médica eu resolvi com muita pesquisa e com ajuda também. Eu vou atrás e faço perguntas mesmo! Lembro que soube de uma palestra de uma paleontóloga no Piauí e eu não tinha como ir, mas implorei para alguém gravar. Ofereci pagar para gravarem, me mandarem e ainda fazerem uma pergunta em meu nome. Rolou até isso. Eu sou muito interessado e leio muito livro de não ficção, porque acredito que ler é a nossa matéria-prima. O escultor tem a argila, o barro ou a pedra que ele vai esculpir, mas nós esculpimos imaginação. E a gente só ganha imaginação quando lê outras coisas, incluindo muita divulgação científica e livros mais técnicos. Não sou formado em nenhuma área de exatas, mas vou atrás, tento compreender e forço a minha cabeça. Não sou nenhum cientista como o Alexey, mas vou no limite do que posso e conto sempre com um tira-teima de cientistas e pessoal qualificado.”

Eu, Astronauta: Com a grande expectativa deste lançamento, como você avalia o atual cenário de consumo e produção de ficção científica original brasileira em comparação com a fantasia?

Felipe Castilho: “Na verdade, deve ser parecido. As editoras estão querendo publicar sci-fi, não só aqui. A Lis Vilas Boas lançou uma ficção científica pela Planeta Minotauro agora, estão saindo outras ficções por aí também e o momento é bom. É legal quando mais de uma editora fala que vai lançar, porque isso naturaliza algo que já é natural. A gente pensa também em ficção científica; o Brasil tem um legado imenso disso.

Então, acho que agora a gente vai descobrir muito dessa galera que está escrevendo fantasia porque acha que não tem mercado para ficção, e que vai começar a falar: “Ah não, eu posso escrever o que eu quiser”. E a meta é essa! Eu acho que a gente tem que escrever o que quiser. Quem quer escrever ficção científica agora tem uma casa, e outras editoras também estão fazendo um movimento bem legal.”

Marcador a Besta Felipe Castilho

Espero que ler um pouco dessa conversa tenha te deixado com vontade de mergulhar de cabeça nos tecnofeudos e nos horrores corporativos de A Besta! Fica aqui o meu convite para que toda a nossa tripulação embarque na leitura dessa mais recente obra de um dos meus autores nacionais favoritos.

Valorizar a literatura nacional é fundamental, e ver autores brasileiros construindo mundos tão complexos, misturando política, biotecnologia e ficção científica de ponta, só prova que temos mentes brilhantes moldando nossos próprios futuros distópicos. Apoiem nossos autores, leiam sci-fi nacional e nos vemos na continuação dessa missão, com a resenha do livro!

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Miguel Felipe

Geek raiz, analista de sistemas, jornalista por paixão e artesão nas horas vagas. Especialmente viciado em café, livros, tecnologia, histórias em quadrinhos, videogames e ficção científica. De cabelo bagunçado, sempre com fones nos ouvidos, um livro na cara e All Star nos pés.

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