Entrevista | Alexey Dodsworth

Alexey Dodsworth está chegando pela Aleph e aqui você vai saber um pouco mais sobre o conteúdo da nova obra do escritor que acaba de ser publicada!

Quem me acompanha por aqui já sabe que ficção científica é praticamente meu idioma nativo, e ver histórias nacionais tão promissoras chegando às prateleiras pela editora que é a nossa casa sci-fi no Brasil é motivo de muita comemoração. Este ano, infelizmente, eu não consegui sair do Rio de Janeiro para conferir de perto a Bienal do Livro de SP, mas quem disse que eu ficaria de fora de um dos eventos que mais amo?

Nath e Dani (que me amam e me odeiam) são nossas correspondentes intergalácticas oficiais nessa missão e não apenas garantiram o meu exemplar autografado de Repetição, como também levaram na nave algumas de minhas perguntas para o autor — porque eu não perderia a chance de arrancar algumas respostas sobre essa história que promete ser incrível. Quero deixar um agradecimento gigantesco às meninas por terem feito essa ponte, e ao próprio Alexey, que se mostrou super solícito, generoso e atendeu à nossa tripulação com a maior atenção do mundo — no meio do caos que é uma Bienal. Confiram abaixo um pouco desse bate-papo!

Eu, Astronauta: A Aleph é a grande referência de ficção científica no Brasil. Qual foi o impacto, em termos de pressão, conquista e liberdade criativa, de desenvolver e lançar Repetição por uma editora com esse legado?

Alexey Dodsworth: “É uma grande honra e uma grande responsabilidade. Nós somos a segunda leva de escritores nacionais de ficção científica publicados pela Aleph. Nos anos 90, a editora já publicou um autor, que foi o André Carneiro, com o livro Amorquia, e ficou décadas sem lançar nenhum autor nacional de ficção científica. Isso realmente é uma grande responsabilidade, mas eu tive muita liberdade criativa. A minha editora é especialista em conseguir identificar falhas argumentativas no roteiro e me ajudou demais. É completamente diferente você escrever um livro com uma editora que dá atenção ao seu trabalho, que lê realmente o seu texto, do que simplesmente você escrever e se autopublicar achando que está bom. Quando você tem uma editora experiente, ela vai descer o malho onde tiver que descer, para aperfeiçoar a obra e para que ela fique o melhor possível para os seus leitores. Então, eu diria que a minha editora não me pressionou, mas me forçou a dar o melhor de mim, e foi um prazer fazer isso.”

Moira
Foto/Reprodução: Repetição.

Eu, Astronauta: Se o conforto e a saudade viraram produtos controlados por algoritmos, o que ainda sobra no universo de Repetição para definir o que nos torna essencialmente humanos?

Alexey Dodsworth: “Eu acho que no universo de Repetição, a coisa que mais permite que a gente continue entendendo a nossa humanidade é aceitar que o sofrimento faz parte da nossa vida. O grande problema daqueles que sucumbem a essa tentação em Repetição — como a mãe de Gael, o pai de Gael e o próprio Gael quando ele clona a Moira, a gata que faleceu —, tudo isso deriva da nossa dificuldade crônica de lidar com fatos reais da vida. A vida não é só prazer, não é só alegria. A vida tem uma parcela de dor, e é muito importante que a gente saiba lidar com essa parcela dolorosa, porque não é apenas o que nos faz humanos, é aquilo que nos faz imortais. No sentido de que um dia nós iremos morrer, mas iremos deixar como legado para os nossos filhos, para os nossos leitores — ou seja, para quem vier depois de nós e herdar a nossa arte, um outro leitor no futuro que vier a ler —, para que a pessoa compreenda que essa dor não é um demérito. Ela não é o que me faz menos humano, é o que me faz mais humano. Basta lembrar da figura patética do presidente Messias que aparece no livro em um momento (que eu não vou dizer qual para não dar spoiler), que é extremamente poderoso, mas é como uma criança de doze anos de idade. De que adianta você ser imune ao sofrimento se isso te infantiliza?”

Eu, Astronauta: A premissa de usar pegadas digitais para recriar mortos levanta questões muito atuais sobre o processamento e a posse dos nossos dados. Pensando na lógica de desenvolvimento e na arquitetura desses algoritmos preditivos, no quanto da tecnologia atual você se baseou para tornar esse “repetidor” cientificamente plausível?

Alexey Dodsworth: “Eu diria que o livro nasce um pouco datado, porque, quando eu comecei a escrever, já havia a tecnologia capaz de produzir identidade, só que ela foi se aperfeiçoando de maneira muito rápida. Eu diria que ela é, hoje em dia, bastante plausível. Se alguma empresa quiser, hoje, criar um repetidor — recriar a identidade de alguém que já morreu baseada em pegadas digitais —, isso já é perfeitamente possível e já está sendo feito. Já existem empresas que oferecem esse tipo de serviço, entre aspas, de “suporte ao luto”. Ou seja, é algo perfeitamente plausível. Eu nem diria que é mais ficção científica, são diversos aspectos que terminam sendo um documentário dos nossos próprios tempos. É claro que Repetição é um livro que ocorre ao longo de 70 anos e, quando chega no fim, a coisa já está bastante avançada no que diz respeito à engenharia genética. Mas, no que concerne à utilização de pegadas digitais para criar identidades realistas, eu diria que a gente já chegou lá.”

Repetição
Foto/Reprodução: Repetição.

Eu, Astronauta: A trama puxa um arco de drama familiar, como foi o processo de equilibrar as discussões éticas sobre biotecnologia e trabalhar com a tentação de caráter diante do peso da relação entre Gael, sua mãe e o luto pelo irmão assassinado?

Alexey Dodsworth: “Questões éticas são sempre dilemáticas. Basicamente não existe, dentro do universo da ética, um certo e um errado. Eu costumo sempre dizer que a ética se localiza, se posiciona, quando existe uma redução de danos — quando tanto a escolha de um caminho quanto a escolha de outro são, ambas, problemáticas. Ética não se confunde com lei, vale dizer. Existem várias coisas que são legais e que são eticamente discutíveis, e existem várias coisas ilegais, mas que são eticamente corretas. Nunca é fácil escolher um caminho que a gente possa dizer: “eticamente falando, esse caminho é o melhor de todos”. Eu costumo sempre dizer que é uma redução de danos, e, de fato, é uma questão que está cada vez mais problemática. A história veio à minha cabeça, por exemplo, depois que eu vi a Elis Regina tornada digital para vender Kombi. Naquele momento, eu, como fã da Elis, pensei: “Os filhos têm o direito de fazer isso porque é a imagem da mãe e eles são herdeiros”. Por outro lado, eu me peguei pensando: “Nossa! Eu agora vou ter que criar um documento para proibir os meus herdeiros de fazerem a mesma coisa comigo”. Porque, se por um lado não existe nada ilegal em fazer isso com a Elis Regina, eu me questiono: será que ela gostaria de ser transformada em uma personagem que vende uma Kombi?”

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Eu, Astronauta: Diante da proposta de juventude eterna, Gael escolhe a mortalidade. O que essa resistência física e biológica representa diante da abordagem corporativa e perda de humanidade que a história parece abordar?

Alexey Dodsworth: “A Repetition, que é a empresa big tech do meu livro, é extremamente tentadora porque oferece coisas sedutoras. E mesmo eu, que sou o autor dessa ficção, se me deparasse com uma empresa que me oferecesse tudo isso, admito que ficaria tentado. O problema é o preço que se paga. Gael, por vários motivos, se toca de que, ao aceitar não só a venda de dados, mas também ser um cliente daquela empresa, ele estaria vendendo a sua alma, a sua moral e a sua ética. E ele é um personagem que é, sob diversos sentidos, bastante “caxias”. É preciso um alto nível de resistência moral e ética para não sucumbir às tentações dos tempos atuais, a uma empresa que vende imortalidade, juventude eterna, poderes, e a promessa de que você nunca mais sofra com a morte de ninguém, nem dos seus bichinhos de estimação. Nós lidamos muito mal com a dor, e quanto pior a gente lida com a dor, mais fácil é para uma big tech identificar: “Qual é o produto que eu preciso vender para essa pessoa?”. E se surgir, um dia, uma empresa que faça isso, ela vai ganhar muito dinheiro, infelizmente.”

Se essa conversa não te deixou com vontade de questionar o papel dos algoritmos na nossa humanidade, eu não sei mais o que deixaria! Eu ainda não li o livro, mas já estou ansioso para que ele chegue em minhas mãos. Deixo aqui o convite para que toda a nossa tripulação embarque junto comigo na leitura de Repetição. Valorizar a literatura nacional é fundamental, e ver a ficção científica brasileira conquistando esse espaço com narrativas tão densas, complexas e atuais só prova que temos mentes brilhantes criando nossos próprios futuros. Apoiem nossos autores, leiam sci-fi nacional e nos vemos na próxima missão, com a resenha do livro!

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Miguel Felipe

Geek raiz, analista de sistemas, jornalista por paixão e artesão nas horas vagas. Especialmente viciado em café, livros, tecnologia, histórias em quadrinhos, videogames e ficção científica. De cabelo bagunçado, sempre com fones nos ouvidos, um livro na cara e All Star nos pés.

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