- por Gabriele Miranda
O que você faz quando não se encaixa na vida que foi escrita pra você? Tipo, quando você é uma semente de mamão mas você não quer crescer e viver um mamoeiro, sabe? Então, é mais ou menos isso que a gente vai assistir nesse longa de animação brasileiro.

Papaya é uma animação brasileira dirigida por Priscilla Kellen e produzida por Alê Abreu (O Menino e o Mundo). Estreou no Festival do Rio 2025, passou pela Mostra de SP e foi a primeira animação brasileira selecionada para o Festival de Berlim. Nos cinemas brasileiros, lançou em setembro de 2026. Uma característica muito interessante é que a obra quase não tem falas, exceto alguns momentos com uma fada chamando pelo nome da protagonista e pela música de encerramento. Esses momentos, inclusive, são bem marcantes.
DA SEMENTE AO MAMOMEIRO
Papaya é uma semente de mamão que estava tranquila dentro da Grande Mãe-Mamoeiro com suas outras irmãs sementes de mamões. Então, de repente, um pássaro abre um buraco na fruta e ela espia através da abertura. Ao vê-lo voando, ela é tomada por uma euforia como quem diz “é isso o que eu quero ser”. Em seguida, ela é lançada ao mundo, para fora do fruto, junto de suas irmãs. Ao se recusar a ficar enterrada na terra e criar raízes, começa uma jornada pela floresta, cheia de magia, beleza e vida.
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Mas a nossa pequena e curiosa semente também conhece o outro lado da moeda. Em seu caminho, ela acaba cruzando com um cenário oposto: toda a destruição causada pela ação humana no meio ambiente. Ela tem contato com lugares que foram drenados pelas fazendas de monoculturas, fábricas que alteram a genética das plantas e as transformam em produto e etc. A partir de tudo isso, precisa decidir o que fazer.
UMA EXPERIÊNCIA MUITO DOIDA
Eu fiquei verdadeiramente chocada com esse filme. Ele me surpreendeu e me mostrou como é possível utilizar elementos simples para conseguir contar uma história; mas mesmo assim, consegue ser envolvente sem usar palavras. O ritmo também tem uma boa cadência e é muito amarradinho, sem cena sobrando.

A trilha sonora é um destaque à parte que me chamou muito a atenção. A música conta a história junto com a imagem. Na floresta, dominam instrumentos de madeira e sopro, com ritmo de forró, baião e xote. Mas quando Papaya sai da floresta e passa pela fazenda e pela fábrica, vira metal, violão de aço, som mórbido.
Outro ponto que achei muito interessante é que no final, a estética muda. O 2D vetorial chapado ganha texturas, parecendo arte de recorte.
Então, num geral, o filme é hipnótico, com muita cara do que a gente entende popularmente como “efeitos psicoativos”:muitas cores pulsantes, mandalas girando, padrões se movimentando ao ritmo das musica. Imagens e sons me atingiram de um jeito especial.
VALE A PENA?
É uma animação que vale muito a pena, principalmente no cinema. Ela não subestima ninguém. Mesmo sem diálogos, consegue falar sobre liberdade, pertencimento e ciclo da vida. Por ser de classificação livre, pode ser aproveitada tanto por adultos quanto por crianças, pois passa uma mensagem e experiência universal. Bonita de ver e gostosa de ouvir. Se você curte animação autoral brasileira ou quer algo diferente, você precisa passar pela tão doida e gostosa experiência que é assistir esse filme. Definitivamente , Papaya recompensa quem se entrega às sensações.
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Gabriele Miranda
Audiovizueira pela FAPCOM, adquiri habilidade de fazer bonecos se mexerem pelo Senac Lapa Scipião. Multi-instrumentista e guitarrista na banda Antena Loka, sou pan, vegana e gateira. No tempo livre, estou jogando em algum emulador, andando de patins ou criticando o capitalismo. Talvez eu encontre algum planeta onde me sinta melhor.
