- por Clara Gomes
A Clara adolescente gostava de Fresno, mas não ouvia tanto assim. A Clara de quase trinta (meu Deus???) ouve Fresno em loop. Acho que faz sentido. Eu amadureci, a Fresno também. Minha retomada em ouvir Fresno veio com o álbum (quase escrevi “disco”… efeito de ter quase trinta, eu acho) “Vou Ter que Me Virar” (2021), que deu voz à alguns sentimentos que nem eu entendia direito. Depois, “Eu Nunca Fui Embora” (2024) termina de reconectar a nova Fresno com a antiga, especialmente na faixa “Diga – Parte final”, música que continua a tão aclamada “Diga – Parte 2” do álbum “Infinito” de 2012. A banda precisava encerrar alguns ciclos, começar outros. Acho que a Clara também. Ainda bem que o mais novo álbum do conjunto porto-alegrense fala sobre isso.
O nítido amadurecimento da banda, que ainda preza por letras melancólicas e profundas, cheias de significados, vem, ainda mais explicitamente, em “Carta de Adeus”. Com uma série de músicas que mais parecem cartas de adeus pra pessoas distintas, cheias de mágoa, raiva, ironia e, ironicamente, alegria, letras carregadas de significados, um som bem distinto, transições lindas entre uma música e outra, “Carta de Adeus” é certamente um marco na história da Fresno. Aliás, a Fresno é uma banda que frequentemente faz álbuns marcantes. Ao retomar a discografia, percebi que o grupo, que se mantém ativo há 27 anos, parece que faz o melhor álbum da vida há 27 anos. Haja fôlego e criatividade pra se manter em uma cena difícil e disputada.

1. Eu Não Vou Deixar Você Morrer
Acho uma faixa tão curiosa pra abrir o álbum, ela é a faixa perfeita pra isso, porém não é uma música tão fácil de digerir. Uma letra complexa, que se encaixa em tantas situações, casa muito bem com o resto do álbum, apresenta esse universo que vem pela frente. Cheia de elementos inusitados. Uma música linda.
2. Carta de Adeus (BYE BYE TCHAU TCHAU)
Faixa que dá nome ao disco. “Eu te velei em vida / Eu enterrei você / Não existe violência pior / Que te esquecer” é uma frase que eu senti, mas nunca soube expressar em palavras. Isso aconteceu comigo recentemente. “Não vou mudar o mundo / Se eu não mudar também” é a frase que mais me pegou nesse álbum todo. Como espero mudanças das outras pessoas sendo que eu entro nas mesmas situações? Às vezes, encerrar ciclos é a melhor coisa que podemos fazer.
3. Tentar De Novo e De Novo
Uma música sobre reconstrução. Tem gente que destrói a gente. “Quem sabe agora, de repente / O teu nome sai da minha mente / E eu peço perdão pra mim mesmo por esquecer / Quem eu era antes de conhecer você / Eu vou viver pra ver” essa música é um hino pra nós mesmos. Um lembrete.
4. SÓBRIA
Sair de um relacionamento (amoroso ou não) é quase que acordar de um pesadelo. Você entende tudo de repente. “Tu não precisa de nada pra estragar tudo”. É literalmente um grito de independência dessa toxicidade. Sóbria porque agora você não está mais intoxicado pelo veneno.
5. Pessoa
Regravação de uma música que fez sucesso na voz da grande Marina Lima, escrita por Claudio Rabello e Dalto, outros dois grandes nomes da música nacional. É engraçado porque essa letra, ainda mais na versão da própria Fresno, parece REALMENTE uma música da Fresno, que o Lucas escreveria. Lucas tem esse dom de colocar uma dose de nostalgia com uma dose de melancolia, critério que “Pessoa” cumpre muito bem. Uma música que parece deslocada com o resto do disco, mas se você prestar atenção, faz todo sentido ela estar bem no meio do álbum.
6. Logo Agora Que o Meu Mundo Girou
Essa música conversou muito comigo, deu nome pra uma situação específica que eu passei. Pelo jeito, muita gente já passou por isso também. Karen Jonz escreveu parte da letra junto com seu marido, Lucas Silveira. Acho muito foda que ela tenha feito parte dessa letra! Perceber que você saiu de um relacionamento tóxico é extremamente libertador.
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7. Tudo Que Você Quer
Acho essa letra autoexplicativa e ao mesmo tempo tão cheia de metáforas e significados diferentes. É admirável como Lucas fez todas essas músicas parecendo realmente cartas de adeus, onde os personagens das letras nunca mais vão se encontrar, é impressionante.
8. Se Foi Tão Fácil
Uma música sobre término (não necessariamente amoroso. Aliás, esse álbum todo mescla essas perspectivas de relações amorosas ou não). “Como foi tão simples pra você / o que é tão horrível só pra mim?” essa daqui é mais quando encerram o ciclo por você. Essa sensação inexplicável de sempre achar que pra outra pessoa foi muito mais fácil do que tá sendo pra você.
9. O Cantor e o Taxista
Música inspirada em uma situação real da vida do Lucas Silveira. Ele disse uma vez no podcast Flow que havia tentado criar uma música sobre um dia que ele pegou um táxi e que a música “não tinha ficado boa”. Ele também twittou bastante sobre essa história. Outra letra extremamente sensível e delicada de Lucas, que aborda aqui em poucas palavras, inúmeros sentimentos. E sentimentos profundos.
10. Eu Não Sei Dizer Não
Acho que não tinha música melhor pra encerrar o álbum. Ela é quase um resumo de todos os sentimentos que esse álbum evoca. Raiva, amor, tudo misturado mesmo. Esse caos que o Lucas permite transbordar dele e cair em letras cuidadosamente escritas é tão bonito de ler, ouvir, cantar, colocar no repeat até cansar.
11. Pra Nos Celebrar (Bonus Track do álbum físico – Lost Media)
Talvez a música mais esperançosa do disco. Considerada “lost media” já que foi lançada apenas nas versões físicas do álbum, CD e Vinil, “Pra Nos Celebrar” é uma homenagem ao amor, como o Lucas costuma escrever. Com uma melodia calma e quase fora do tom que percorre o álbum, essa música, sim, encerra lindamente “Carta de Adeus”, quase como um fechamento de ciclo de tudo que veio antes mesmo.

“Carta de Adeus” é um álbum escrito com muito carinho e cuidado, com uma execução impecável e lindamente produzido. A Fresno, que já tinha marcado seu nome na história da cena musical brasileira, apenas repete o feito. É engraçado porque essa era já começa com sentimento de despedida, justamente pelo tema apresentado. “Adeus” é um sentimento tão presente nas canções que a aura nostálgica que esse disco proporciona me atingiu de maneira tão peculiar que eu já tô com saudade antes de terminar. Aliás, a turnê desse álbum mal começou (mesmo que eu tenha demorado 2 meses pra terminar esse texto). Ainda bem que a criatividade de Lucas Silveira é infinita. Lucas, se você estiver lendo esse texto, desculpa, “E se hoje amam esse olhar / Tomem os meus olhos / Vejam tudo o que eu vivi / Se o mundo quer me ver chorar / Não quero tragédia / Sabe que era só pedir” eu DEFINITIVAMENTE não quero te ver chorar, MAS vamos combinar de fazer mais música por, pelo menos, mais 27 anos?
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Clara Gomes
Paulista, 29 anos, pan e Demi. Formada em Cinema, trabalho como Social Media. Apaixonada por música (emo, kpop e muitas coisinhas mais) e às vezes toco baixo. Tô sempre num show diferente (é irresponsabilidade financeira). Gosto de RPG e nerdices em geral, a maior fã do MCU que você vai conhecer, a maior fã de Supernatural que existe. Choro até com TikTok. Tô sempre com a cabeça nas estrelas (e às vezes com estrelas na cabeça)
