- por Dani Goldenberg
Às vezes, as melhores surpresas vêm de lugares que a gente nem sabia que existiam. Foi assim com 100 Noites de Desejo: um filme que chegou sem alarde, sem trailer hypado, sem amigo me enchendo o saco para assistir. E talvez seja exatamente por isso que ele me pegou tão de jeito. E assim. Muito.
Confesso que não tinha ouvido falar muito de “100 Noites de Desejo“, mas se “As 1001 Noites” e “O Conto da Aia” tivessem um filho estranho, o que ia sair é algo parecido com esse filme. Eu também não conhecia a graphic novel da Isabel Greenberg que deu origem a essa adaptação, mas agora vou ter que dar uma passadinha na Darkside pra checar. Ou seja, cheguei sem expectativa nenhuma e pouquíssima informação a respeito, e nos primeiros dez minutos, estava totalmente investida na história.
A forma como a diretora resolveu apresentar esse mundo funcionou tão bem pra mim que, quando vi, precisava saber onde aquilo ia dar. Ela te situa com a quantidade ideal de informações: onde a história começa, quem são as personagens, como chegamos até aqui… Tudo com um toque de humor enquanto nos leva pra um mundo absurdo (embora possível).
Já no início do filme, conhecemos Cherry (Maika Monroe), seus deveres para com aquela sociedade e o problema difícil que ela tem que resolver. 101 dias para engravidar, ou então enfrentar a execução. Só que seu marido, Jerome (Amir El-Masry), não parece especialmente empenhado em resolver isso, mesmo porque ele nem chega a tentar. Quem de fato cuida de Cherry e se importa com ela é sua criada, Hero (Emma Corrin).

Na verdade, ele está tão preocupado que resolve passar esses 100 dias viajando, depois de fazer uma aposta com seu amigo, Manfred (Nicholas Galitzine), de que ele poderia tentar seduzir sua esposa. Caso ele conseguisse, ganharia o castelo de Jerome (e ah, sim, ganharia Cherry também). Aquela coisa, né, se ela trair, ela morre, se ela não trair, ela morre também. Meio que o problema é dela. Ele parece mais interessado é nos outros homens mesmo.
Manfred, que acabou de perder tudo, acha que vai ser fácil seduzir Cherry com seu charme, carisma e (muito inconveniente) presença. E para proteger Cherry das investidas de Manfred, Hero passa a contar histórias durante essas cem noites. As mulheres não podem ler nem escrever. O próprio ato de saber fazê-lo é entendido como bruxaria, e então, preservar histórias se torna aqui um ato de resistência.
A comparação com “As Mil e Uma Noites” é inevitável, mas, em vários momentos, eu também me vi lembrando de “O Conto da Aia”. O controle sobre os corpos femininos e a fertilidade, a retirada do acesso ao conhecimento e a visão de que elas são propriedade fazem parte da base desse universo. As simbologias são diferentes, mas a base é a mesma: usar a religião pra jogar a culpa nas mulheres.
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Achei a direção e edição do filme muito boas, e as atuações também ajudam bastante. Emma Corrin entrega uma Hero poderosa e imponente, mesmo nos momentos de cenas mais silenciosas. Maika Monroe funciona muito bem como Cherry, principalmente no que diz respeito à inocência e imagem de fragilidade e impotência, que contrastava com a Hero o tempo todo. Eu demorei até para entender quais eram exatamente os sentimentos da personagem, porque parecia que nem ela mesma os conhecia. Já Nicholas Galitzine (eu sei, ele está em tudo) faz um ótimo trabalho como Manfred, equilibrando charme e desconforto de um jeito que deixa o personagem difícil de ignorar, cativante do seu próprio jeito meio torto.

Uma das coisas que mais gostei foi a história interna, a contada pela Hero. Me fez sentir que estava acompanhando duas histórias simultâneas e intercaladas e, assim como as personagens do filme, ficava curiosa pelo próximo pedacinho a ser contado. Eu também queria saber o que ia acontecer com a Rosa e as irmãs dela, que raios eram as tais Pedras Dançantes que davam título à história e como isso se relacionava com a história principal. Essa história interna reforça ainda mais a ideia de mulheres se unindo para não terem suas narrativas apagadas; da busca pelo conhecimento, ainda que de forma escondida, com o risco de pagar pela “desobediência” com a própria vida e da sororidade como alicerce para a sobrevivência naquele ambiente.
Tá, mas e o romance queer?

Eu nem sabia inicialmente que essa era uma parte tão grande da proposta. Existem, é claro, as pistas ali, desde o início, mas a confirmação dessas suspeitas se dá muito mais lentamente do que seria de se esperar (especialmente se você leu a graphic novel, pelo que eu pesquisei). O marido de Cherry claramente não tem interesse nela. A Hero claramente tem. Mas novamente, levei um bom tempo pra entender o que a Cherry queria. Então pra mim, o foco ficou muito mais irmandade feminina que agia como resistência mantendo histórias vivas do que nessa parte específica.
Entre fantasia, romance queer e crítica social, 100 Noites de Desejo constrói uma experiência interessante, inteligente e muito mais envolvente do que eu esperava encontrar. E, embora o título meio que sugira uma quantidade significativa de cenas quentes, não é bem isso que a gente encontra. Foi um filme que me deixou pensando por algum tempo mesmo depois de acabar e, se você tiver dúvidas, assista pelo menos os primeiros 8 a 10 minutos. Te desafio a parar por aí mesmo.
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Dani Goldenberg
Sou formada em Letras e passei 9 anos trabalhando em escolas, mas fugi para o marketing, então agora sou gerente de projetos, o que geralmente significa "babá de adultos". Meu quarto tem livros demais e eu tenho esperança de que um dia vou ler todos. O dinheiro que não vai para eles costuma virar ingresso de show, viagens, comida boa e qualquer coisa relacionada a gatos. Minha vibe é 50% gótica e 50% princesa do glitter, estou aprendendo a ler tarot e sou uma cantora de chuveiro extremamente dedicada. Minha personalidade foi moldada por filmes dos anos 2000, Disney Channel e pelos livros da Meg Cabot, especialmente A Mediadora. Meu traço tóxico é discutir com pessoas que eu conheço para defender pessoas que eu não conheço, então fica o aviso: nunca fale mal da Pink perto de mim.
