- por Clara Gomes
Quando eu vi o trailer de “O Fim da Rua” no cinema, apesar de adorar o elenco, não me chamou tanta atenção. Quando surgiu a oportunidade de ir à cabine, até me animei. E fui surpreendida. Positivamente!
Ambientado durante o comecinho dos anos 80, “O Fim da Rua” utiliza clichês para contar uma história honesta sobre uma família tentando sobreviver a um evento estranho que ocorre no bairro. Mais do que isso, o filme é também sobre muitas outras coisas: papel da mulher na sociedade (e dentro da família), adolescência, relação com vizinhos e tantas outras pequenas nuances, que apesar de não serem aprofundadas, estão presentes na tela.
O longa traz uma história de aventura, sim, mas é quase um “slice of life” (“fatia da vida”, em tradução literal, termo utilizado para filmes que mostram um realismo cotidiano — mas nesse caso bem surreal) também, além de extremamente bem-humorado. O que poderia ser mais um filme sem profundidade, ganha outras camadas quando logo de cara já questiona algumas coisas sobre os papéis dentro do casamento.
Denise (Anne Hathaway) aparenta estar frustrada com a falta de comunicação do marido, Greg (Ewan McGregor) e muito menos com as entregas de pizza que ele anda fazendo para complementar a renda, mesmo após ter voltado a trabalhar em uma empresa renomada. Além de apresentar o conflito familiar, esse também é o ponto de partida para entender melhor a jornada de Denise, que possui praticamente uma história só dela dentro da narrativa. Ela é a protagonista e Anne Hathaway carrega o peso dramático de terror e comédia muito bem. A versatilidade de Hathaway não surpreende quem já acompanha o trabalho dela há tempos, mas faz relembrar exatamente por que gostamos de assisti-la atuando.
Já Ewan McGregor, o pai da família, é a escada para Anne brilhar. E ele entendeu perfeitamente seu papel de coadjuvante na história de Denise, mas ainda sendo importante para os eventos principais da história. McGregor faz uma escolha consciente de deixar Anne se destacar e isso é certamente a melhor decisão para o filme. Os filhos do casal Audrey (Maisy Stella) e Brian (Christian Convery) cumprem muito bem os papéis complementares da família e também possuem seus momentos de holofotes, especialmente em uma sequência em que estão longe dos pais. Ambos os atores são super novos (22 e 16 anos, respectivamente), mas parecem ter um futuro brilhante se seguirem entregando o que fizeram em “O Fim da Rua”.

A fotografia é convencional, mas o uso constante de shots com o filtro de dioptria dividida pode ser um pouco cansativo, especialmente em uma cena em que a família está conversando toda em conjunto sobre o que fazer diante de uma situação, mas não é nada que de fato atrapalhe a experiência.
A trilha sonora possui músicas famosas dos anos 80 como forma de ambientar o espectador na época escolhida. Já a trilha sonora original de Michael Giacchino é certamente inspirada em filmes dos anos 80 e 90 como Jurassic Park, E.T., entre outros e, além de marcante, cumpre muito bem o seu papel — não só em ambientar o filme, mas complementar a vibe nostálgica presente, servindo totalmente às cenas.
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Quando o filme acabou, apareceu escrito “produzido por J.J. Abrams” e de repente tudo fez muito mais sentido. Esse roteiro poderia perfeitamente ser dirigido pelo Abrams. Falando em roteiro, apesar de clichê, é bem escrito e funciona muito bem no que se propõe. Como disse anteriormente, o roteiro toca em diversos assuntos que continuam atuais, mas que certamente vieram de uma outra época (talvez até de antes dos anos 80). Acredito que o fato de David Robert Mitchell ter escrito e dirigido o longa contribuiu muito para que a visão não tenha se perdido, pois esse mesmo roteiro na mão de outro diretor poderia soar clichê e sem graça. Claro que o elenco bem construído — e bem direcionado — ajuda muito, mas não seria o suficiente para sustentar a história por si só.
“O Fim da Rua” possui um clima nostálgico, que nos remete a clássicos como Jumanji e Jurassic Park, mas junta esse sentimento a um CGI excelente, que precisava ser perfeito (já que a maioria das cenas ocorre durante o dia em ambientes abertos), e realmente é. O filme abraça seu lado aventura e também o fato de que não é exatamente uma ideia original, mas, ao assumir isso, torna-se uma produção honesta, que entrega muito bem o que promete e ainda nos traz um quentinho no coração com uma boa história. É perfeito para se tornar o próximo clássico do cinema blockbuster de aventura.
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Clara Gomes
Paulista, 29 anos, pan e Demi. Formada em Cinema, trabalho como Social Media. Apaixonada por música (emo, kpop e muitas coisinhas mais) e às vezes toco baixo. Tô sempre num show diferente (é irresponsabilidade financeira). Gosto de RPG e nerdices em geral, a maior fã do MCU que você vai conhecer, a maior fã de Supernatural que existe. Choro até com TikTok. Tô sempre com a cabeça nas estrelas (e às vezes com estrelas na cabeça)
