- por Rapha Reis
Você curte thriller psicológico? Então tenho uma boa e má notícia hahahaha.
Bom Garoto (Heel) é um filme dirigido por Jan Komasa que parte de uma situação bastante absurda: um jovem de 19 anos é sequestrado por um casal que decide submetê-lo a um processo nada convencional de “reabilitação”. A partir daí, o filme mergulha em uma relação cada vez mais desconfortável entre violência, controle e moralidade.
A situação é tão estranha e desconfortável que faz você pensar: “Tá, quero ver onde isso vai dar.” O problema é que, a história não consegue sustentar essa expectativa durante quase duas horas de duração.
Bom, se tem uma coisa que funcionou muito bem, foi o elenco! Stephen Graham e Andrea Riseborough entregaram muito, especialmente na construção de personagens que não são nada previsíveis e totalmente esquisitos.
Anson Boon também consegue transmitir bastante desconforto através de Tommy, principalmente porque o filme trabalha muito com expressões, silêncios e mudanças sutis de comportamento. Já no início você pega ranço do personagem e chega a dar razão para os sequestradores. Nesse nível!!

Stephen Graham, em particular, consegue deixar o personagem desconcertante sem precisar transformar cada cena em um espetáculo. E Andrea Riseborough acompanha muito bem essa energia, e a dinâmica entre os três é provavelmente o elemento que mais me manteve interessada. Eles sustentaram toda uma história que poderia facilmente cair no exagero, principalmente porque a trama mistura situações absurdas com momentos um pouco perturbadores.
Sem dúvidas é um grande mérito do filme: a maneira como ele apresenta sua situação inicial. Porque, sim, temos muito incômodo na dinâmica entre Tommy e o casal, e o filme sabe explorar esse desconforto sem entregar imediatamente todas as suas cartas.
Talvez seja um daqueles casos em que você termina pensando que as atuações são melhores do que o material que os atores receberam. Acreditem, acontece!
A fotografia de Michał Dymek trabalha muito bem os ambientes fechados e ajuda a criar uma sensação constante de confinamento. A casa se torna praticamente mais um personagem, e a maneira como os espaços são enquadrados contribui para aquela sensação de que existe sempre alguma coisa errada acontecendo, mesmo quando aparentemente nada está acontecendo.
Daremos mais um ponto positivo pela escolha de não transformar tudo em um festival de imagens sombrias e efeitos para tentar forçar o espectador a sentir medo. O filme consegue construir desconforto principalmente através da composição dos ambientes, dos enquadramentos e da própria presença dos personagens dentro daqueles espaços. Não é uma fotografia que fica chamando atenção o tempo inteiro para si, mas funciona muito bem para a proposta.
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A direção de Jan Komasa é bastante segura, principalmente na primeira metade do filme. O problema, para mim, aparece justamente no desenvolvimento. Em determinado momento, senti que a história poderia estar caminhando para algo mais provocador ou mais perturbador, mas ela acaba escolhendo um caminho relativamente previsível. E aí entramos em uma questão importante: o ritmo. Porque 1h50 é bastante tempo para esse tipo de história. Algumas sequências poderiam ser mais enxutas, principalmente porque a tensão que funciona tão bem no começo vai perdendo impacto conforme o filme avança.
A trilha sonora, por outro lado, não foi algo marcante. Ela cumpre sua função dentro das cenas, e permitiu que os elementos visuais e as atuações tivessem muito mais presença.
Talvez a parte de ser “um filme bizarro” seja algo positivo, porque o filme está longe de ser um thriller convencional. Tem algo desconcertante na maneira como misturam violência, humor ácido e situações absurdas. Em alguns momentos, eu realmente não sabia se deveria ficar tensa, incomodada ou simplesmente pensar “que diabos eu estou assistindo?”. E, particularmente, gosto quando um filme consegue provocar esse tipo de reação. Só que essa mesma estranheza não me pareceu suficiente para carregar o filme até o final. Conforme a história avança, fui ficando menos envolvida e mais consciente da duração. Então se você gosta de thrillers psicológicos bizarros, desconfortáveis e histórias que brincam com questões morais pode valer a experiência. Eu só recomendaria ir com expectativas moderadas.
Bom Garoto chegou ao Brasil com exclusividade pelo Filmelier+, e aí vai assistir? E siga a gente no instagram
Rapha Reis
Vim parar na Terra por um bug no sistema e sigo tentando parecer uma humana funcional (com certo sucesso, na maioria dos dias). Viciada em explorar novos cantos do planeta, adotar gatos que claramente me escolhem e usar o Fortnite como terapia alternativa. Meu gosto musical é um caos cuidadosamente selecionado e minha cozinha é quase um laboratório - com menos explosões, eu juro. Minha carta de Hogwarts nunca chegou, então me instalei no Instituto Xavier… mesmo que minha moral seja um pouco questionável (mas sempre carismática).
