- por Nathalia Souza
No último domingo, 25 de outubro, o Iron Maiden voltou a São Paulo para uma apresentação no Nubank Parque com a turnê Run For Your Lives World Tour, que celebra os 50 anos de história de uma das bandas mais importantes do heavy metal mundial. Com o Alter Bridge responsável pela abertura, a noite foi dedicada a revisitar diferentes fases da trajetória da Donzela de Ferro, especialmente seus nove primeiros álbuns, em um repertório que reúne clássicos e músicas que há bastante tempo não apareciam nos palcos. Mais do que uma comemoração de aniversário, a turnê é uma oportunidade de revisitar a identidade musical e visual que transformou o Iron Maiden em uma referência do gênero.
E, para quem acompanhava a turnê, a setlist não trouxe exatamente surpresas. O repertório já vinha sendo apresentado ao longo da Run For Your Lives, e sua proposta era bastante clara desde o anúncio: revisitar os primeiros anos da banda e celebrar os discos que ajudaram a construir sua identidade. Portanto, a expectativa não estava necessariamente em descobrir qual seria a próxima música, mas em acompanhar ao vivo uma seleção que atravessa diferentes momentos da história do Maiden. E convenhamos, quando estamos falando de músicas como “The Number of the Beast”, “Powerslave”, “Fear of the Dark” e “Hallowed Be Thy Name”, não é como se faltasse material para comemorar.
Antes do show: abelhas, gritos e merchandising
Antes de falar dos gigantes, preciso compartilhar um pouco do que aconteceu no meu pré-show, que definitivamente não saiu como planejado. Pela primeira vez na vida, fui picada por uma abelha e, também pela primeira vez, precisei recorrer ao ambulatório de um evento. Tomei medicação, fiquei com a mão inchada e passei o restante da noite com um curativo no dedo. Definitivamente, não era o tipo de lembrança que esperava levar para casa depois de um show do Iron Maiden. Felizmente, a equipe de atendimento foi absolutamente incrível e me deu todo o suporte necessário. Fica aqui meu agradecimento aos profissionais!
Mas nem só de acidentes com insetos foi feito o pré-show. A Eisenbahn, cerveja patrocinadora do evento, preparou uma ativação bastante simples: bastava realizar um cadastro e participar de um desafio que consistia em dar um grito para ganhar um copo de cerveja. E, claro, eu participei. Não sei se ganhei pontos pela potência vocal ou se simplesmente destruí o tímpano de metade das pessoas ao meu redor com meu grito agudo, mas saí de lá com meu copo garantido. Só havia um pequeno detalhe: eu não bebo cerveja. Minha amiga, por outro lado, fez as honras e adorou.
Também preciso elogiar o merchandising. Além da pop-up store que antecedeu o evento, havia uma boa variedade de produtos disponíveis para os fãs. Fico particularmente feliz quando vejo esse cuidado em trazer opções além das camisetas tradicionais. E, obviamente, não tive a menor resistência diante de um moletom de Fear of the Dark. Ele veio comigo para casa.
Alter Bridge: uma missão nada fácil

A abertura da noite ficou por conta do Alter Bridge e, antes de qualquer coisa, quero deixar duas observações. Não sou fã da banda e não gosto particularmente de suas músicas. Isso não significa, porém, que minha avaliação sobre uma apresentação precise ser limitada ao meu gosto pessoal. São coisas diferentes.
Dito isso, achei os integrantes uns queridos! Minha definição musical para o Alter Bridge continua sendo algo próximo de música de pai divorciado, mas preciso reconhecer que eles tiveram uma missão complicada naquela noite.
A plateia estava ansiosa, esperando pelo Iron Maiden, e ainda havia outro assunto ocupando a cabeça de muita gente: as eleições. Era uma mistura curiosa de pessoas tentando aproveitar o show enquanto conferiam as atualizações no celular. A tensão era perceptível e, em alguns momentos, parecia chegar até mesmo ao palco.
A banda chegou a comentar sobre a responsabilidade de abrir para o Iron Maiden e sobre não poder cometer erros naquela apresentação. E eu entendo completamente. Não deve ser fácil tocar para milhares de pessoas que, embora estejam ali diante de você, estão esperando ansiosamente pela atração seguinte. Ainda assim, fizeram seu trabalho e conseguiram conduzir a apresentação. Não virei fã do Alter Bridge naquele domingo, mas também não tenho motivos para diminuir o que entregaram.
Iron Maiden: os donos da festa

Agora, quando falamos do Iron Maiden, a conversa muda completamente. Os donos da festa chegaram e fizeram aquilo que sabem fazer de melhor: entregar um espetáculo!!!
Uma das coisas que mais gosto no Iron Maiden não está necessariamente nas músicas, mas na maneira como eles transformam cada apresentação em um espetáculo visual e teatral. Existe uma identidade muito própria na forma como a banda trabalha seus shows, e a Run For Your Lives é uma ótima oportunidade de perceber isso.
E aqui precisamos falar de Bruce Dickinson.
Eu simplesmente amo a teatralidade que Bruce leva para o palco. Não é só sobre cantar, correr de um lado para o outro ou interagir com a plateia. Existe uma interpretação acontecendo o tempo inteiro. Cada música ganha uma personalidade, uma atmosfera e, muitas vezes, até um figurino próprio. Ao longo das 17 faixas, principalmente da metade para o final do show, ele encontrava alguma maneira de mudar o visual, acrescentar um elemento ou transformar sua presença de acordo com o momento.
É justamente esse tipo de coisa que me faz pensar nas semelhanças entre o metal e as grandes divas pop. Sei que muita gente faz questão de separar esses universos, mas nunca entendi muito bem essa necessidade. A teatralidade não é exclusividade de um gênero musical. A preocupação com figurinos, a construção de uma persona, a interpretação e o prazer de transformar um palco em um grande espetáculo estão presentes nos dois mundos. E Bruce Dickinson é um excelente exemplo disso.
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Aliás, sua relação com o teatro não é exatamente uma coincidência. Bruce estudou artes cênicas e essa experiência aparece de maneira muito natural em sua presença de palco. Ele sabe interpretar uma música, brincar com a plateia e, principalmente, ocupar o espaço. Não existe aquela sensação de alguém simplesmente parado diante de um microfone executando seu repertório. Bruce está em constante movimento, fazendo de cada apresentação uma experiência própria. E como sempre gosto de falar: Ele tem prazer de estar no palco.
E que movimento! É praticamente impossível conseguir fotografar ou gravar o homem. Você aponta a câmera, encontra o enquadramento, ajusta o foco e, quando finalmente está pronto, ele já está do outro lado do palco. O bicho roda mais que peão da Casa Própria. É impressionante como consegue manter esse nível de energia e presença durante toda a apresentação. E ele tem quase 70 anos, quero eu chegar assim na idade dele.
Também gosto muito dos momentos em que ele quebra um pouco a grandiosidade do espetáculo com suas brincadeiras. Em determinado momento, anunciou que beberia uma bebida alcoólica e fez uma expressão de surpresa ao perceber que, na verdade, estava bebendo água. São pequenas interações, mas que mostram o quanto ele se diverte no palco e sabe envolver o público para além das músicas.
E é isso que torna Bruce tão interessante de assistir. Ele não precisa disputar a atenção com o espetáculo visual do Iron Maiden, porque é parte fundamental dele. Sua voz, seus movimentos, suas expressões e até suas brincadeiras fazem parte de uma apresentação que entende muito bem o valor da performance. E claro, não posso não falar no momento que o Bruce disse que o Brasil tem um lugar especial no coração da banda (Claro, somos o país que mais ouve Iron Maiden no mundo!).

Outro ponto importante da noite foi a presença de Simon Dawson, novo baterista de turnê da banda, que assume a função após a saída de Nicko McBrain das apresentações ao vivo. Nicko continua sendo membro do Iron Maiden, mas não acompanha mais a banda nas turnês. É uma mudança significativa para um grupo cuja formação e identidade musical são tão reconhecidas pelo público, e Simon agora faz parte dessa nova fase dos shows.
Depois de cinco décadas, o Iron Maiden continua demonstrando que um show não precisa ser apenas uma reprodução ao vivo de um álbum. Pode ser uma experiência completa, com identidade, narrativa, humor e, principalmente, muita personalidade. E, sinceramente, é muito bom ver uma banda que ainda tem tanto prazer em estar no palco. São 50 anos de história, mas o Iron Maiden está longe de tratar seu legado como uma simples peça de museu. A banda continua transformando suas músicas em espetáculo e mostrando por que permanece tão relevante para diferentes gerações de fãs.
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Nathalia Souza
Artista, tradutora, animadora, programadora e ainda com formação em mecâtronica e marketing, sou uma menina que não sabe bem o que quer da vida. Emo de carteirinha, vivo indo em shows e eventos para aumentar minha coleção de memórias. Vivo no mundo da lua, e talvez seja por isso que me considero astronauta.
