- por Nathalia Souza
Eu acho que uma das coisas mais interessantes de uma Bienal do Livro é perceber que, no meio de toda a movimentação, dos autores internacionais, das filas enormes, dos lançamentos, das adaptações e até das polêmicas que inevitavelmente tomam conta das redes sociais, existe uma conversa que às vezes acaba ficando em segundo plano: a força da literatura brasileira. E digo isso sem qualquer necessidade de colocar a literatura nacional em oposição à estrangeira. Eu amo livros internacionais e seria impossível falar da minha própria formação como leitora sem mencionar histórias, personagens e autores que vieram de outros países. A questão é outra. É olhar para uma Bienal cheia de pessoas e perceber que existe uma produção enorme acontecendo aqui, com autores que criam histórias para leitores brasileiros e que, cada vez mais, também conseguem fazer essas histórias chegarem muito longe.
Talvez eu tenha uma relação particularmente afetiva com isso porque, para mim, a leitura nacional começou muito antes de eu sequer entender que estava “formando repertório”. Eu fui nascida e criada com Mauricio de Sousa. A Turma da Mônica fez parte da minha infância de uma maneira tão natural que eu nem pensava naquilo como consumir uma obra brasileira. Era simplesmente o que eu lia. Mônica, Cebolinha, Magali, Cascão e companhia estavam ali, fazendo parte da minha rotina. E acho que isso diz muito sobre a importância de termos histórias produzidas aqui: uma criança não precisa começar sua relação com a leitura através de um clássico de centenas de páginas. Ela pode começar em um gibi, em uma história em quadrinhos, em um livro juvenil, em uma fanfic, em um romance. O que importa é encontrar uma porta de entrada. E o Brasil sempre teve muitas delas.

É por isso que eu gosto tanto de olhar para nomes como Carina Rissi e Raphael Montes quando penso no tamanho que a literatura nacional pode alcançar. Carina Rissi ajudou a construir uma relação muito forte entre romance nacional e comunidade leitora, especialmente entre leitores que acompanharam suas histórias ao longo dos anos. Raphael Montes, por outro lado, mostra como um autor brasileiro pode transformar suspense, terror e histórias desconfortáveis em verdadeiros fenômenos de público. E foi impossível não perceber isso na Bienal. A movimentação em torno dele, as filas, os leitores falando sobre os livros e a presença dele nas redes mostram que existe, sim, um público gigantesco interessado em descobrir e acompanhar autores daqui. Não é simplesmente sobre “dar uma chance para a literatura brasileira”. É sobre reconhecer que ela já tem público, já tem comunidade e já movimenta leitores apaixonados.
E falando em comunidade, acho impossível contar essa história sem falar das fanfics. Antes de BookTok, antes de boa parte dos conteúdos literários que hoje vemos todos os dias no TikTok e no Instagram, já existia uma comunidade gigantesca de brasileiros escrevendo, lendo, comentando e compartilhando histórias pela internet. A fanfic foi porta de entrada para muita gente, tanto para a leitura quanto para a escrita. E existe algo muito bonito nisso porque ela transforma a experiência de ler em uma experiência coletiva. Você lê um capítulo e vai comentar. Espera a atualização. Cria teoria. Recomenda para um amigo. Começa a escrever também. Encontra outras pessoas que gostam exatamente daquela mesma história. Em muitos casos, essa cultura digital também ajudou a revelar autores que posteriormente chegaram ao mercado editorial. A literatura deixa de ser uma experiência completamente individual e vira conversa, comunidade e, principalmente, participação.
E é justamente nesse ponto que eu acho tão interessante o que a Aleph está fazendo. A editora tem uma história enorme ligada à ficção científica e ajudou a colocar nas mãos dos leitores brasileiros alguns dos maiores nomes internacionais do gênero. E eu não vejo absolutamente nenhum problema nisso. Pelo contrário. Acho maravilhoso que uma editora brasileira tenha ajudado tantas pessoas a descobrir mundos criados por autores de diferentes países. Mas existe algo especialmente interessante quando uma editora com esse histórico começa a ampliar ainda mais o espaço para a ficção científica brasileira. Nesta Bienal, quatro dos cinco livros mais vendidos no estande da Aleph eram de autores nacionais, e isso é um dado que chama atenção não porque signifique que, de repente, a ficção científica brasileira dominou o mercado, mas porque mostra uma coisa muito mais simples e importante: existe gente querendo ler essas histórias.
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E existe algo muito poderoso em poder imaginar o futuro a partir daqui. Durante muito tempo, quando pensamos em ficção científica, nossas referências acabam sendo quase automaticamente estrangeiras. Grandes cidades futuristas, corporações gigantescas, tecnologias imaginadas a partir de realidades muito diferentes da nossa. Tudo isso continua sendo fascinante e continua tendo seu espaço. Mas eu também quero saber como é o futuro imaginado por alguém que cresceu no Brasil. Quero saber como a nossa cultura, nossos problemas, nossa desigualdade, nossa criatividade, nossas tecnologias e até nosso jeito de enxergar o mundo aparecem em uma história de ficção científica. É muito diferente ler uma distopia e perceber que, de alguma maneira, aquele futuro também poderia estar falando sobre o lugar onde você vive. E é isso que torna tão interessante ver autores brasileiros ocupando cada vez mais esse espaço.
Ao mesmo tempo, a Bienal também mostrou como a comunidade leitora brasileira é diversa e, às vezes, completamente caótica. Não dá para falar da edição sem mencionar a polêmica do Ghostface envolvendo o chamado dark romance. O episódio viralizou, gerou discussão e acabou se tornando um dos assuntos mais comentados nas redes, mas acho que vale separar as coisas. Dark romance é um gênero que encontrou uma comunidade enorme de leitores, principalmente na internet, e uma polêmica envolvendo uma ação específica dentro de um evento não precisa ser transformada em um julgamento sobre todas as pessoas que leem esse tipo de livro. O mais interessante, para mim, é perceber como essas comunidades conseguem movimentar a cultura literária de uma forma que seria difícil imaginar alguns anos atrás. Um livro viraliza, uma personagem vira meme, uma cena provoca discussão, uma capa aparece em milhares de vídeos e, de repente, pessoas que talvez não entrassem em uma livraria estão procurando aquele título. Às vezes é sério, às vezes é engraçado, às vezes é completamente absurdo. Mas existe uma coisa inegável: tem muita gente falando sobre livros.

E talvez seja justamente isso que eu gostaria que ficasse dessa Bienal. Não que precisemos escolher entre literatura brasileira e estrangeira, porque eu definitivamente não quero fazer essa escolha. Quero continuar lendo autores de outros países, descobrindo culturas diferentes e conhecendo histórias que jamais seriam escritas da mesma forma aqui. Mas também quero que exista espaço para olhar para o que está sendo produzido no Brasil com a mesma curiosidade. Quero que uma criança possa começar com a Turma da Mônica, como eu comecei, e encontrar depois dezenas de outros caminhos. Quero que alguém descubra romance através da Carina Rissi, suspense através do Raphael Montes, fantasia através de um autor brasileiro, ficção científica através da Aleph e que uma pessoa que passou anos escrevendo fanfic na internet consiga enxergar a possibilidade de transformar aquela paixão em carreira. Não porque o que vem de fora seja menos importante, mas porque o que nasce aqui também pode ser incrível (e muito!!!).
No fim, talvez a grande força da literatura brasileira esteja justamente nessa capacidade de criar comunidade. Está no gibi que uma criança lê repetidamente, no romance que alguém recomenda para a amiga, no autor que recebe uma fila enorme na Bienal, na fanfic publicada de madrugada e acompanhada por centenas de pessoas, no livro que viraliza no TikTok, na pessoa que entra em uma livraria procurando um título estrangeiro e sai de lá descobrindo um autor brasileiro. E é por isso que eu achei tão bonito ver o que aconteceu com a Aleph. Não é sobre fechar portas para o mundo. É justamente o contrário: é ampliar o nosso próprio universo. Depois de tantos anos lendo futuros imaginados por outras pessoas, também é muito bom poder abrir um livro e encontrar um futuro que, de alguma maneira, fala a nossa língua.
Porque, no final das contas, literatura também é isso: descobrir que existem mundos inteiros esperando por nós dentro de um livro. E talvez esteja na hora de prestarmos um pouco mais de atenção aos mundos que estão sendo criados aqui.
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Nathalia Souza
Artista, tradutora, animadora, programadora e ainda com formação em mecâtronica e marketing, sou uma menina que não sabe bem o que quer da vida. Emo de carteirinha, vivo indo em shows e eventos para aumentar minha coleção de memórias. Vivo no mundo da lua, e talvez seja por isso que me considero astronauta.
