Review | Olhares – Livro de Terror Infantil

Review | Olhares – Livro de Terror Infantil

Quando vi esse livro, uma colaboração entre Junji Ito e Soshichi Tonari, minha primeira reação foi de surpresa. Junji Ito é conhecido justamente por ser um dos grandes mestres do terror contemporâneo, então a ideia de vê-lo envolvido em um livro voltado para crianças me deixou bastante desconfiada. Fiquei pensando: será que isso realmente funciona? Será que não vai traumatizar ninguém?

A história acompanha uma criança que tem um fenômeno de percepção em que passa a enxergar rostos em todos os lugares. Objetos comuns, superfícies, sombras e texturas começam a formar expressões faciais. Esse tipo de percepção é conhecido como pareidolia, quando o cérebro humano identifica padrões familiares, principalmente rostos, em coisas aleatórias. O que poderia ser apenas curioso acaba se tornando inquietante dentro da narrativa.

Embora o livro seja direcionado ao público infantil, ele claramente está naquela zona muito específica do chamado terror para crianças. É o tipo de obra que não é explicitamente assustadora, mas provoca um desconforto estranho. Ele me lembrou bastante obras como Coraline, que também é voltada para leitores jovens, mas tem momentos que deixam até adultos um tanto desconfortáveis.

Foto/Reprodução: Eu, Astronauta.

Curiosamente, a experiência também me fez lembrar de certos momentos de Bob Esponja. Apesar de ser uma animação infantil extremamente humorística e absurda, a série tem alguns episódios que entram em territórios inesperadamente sombrios. Um exemplo clássico é aquele episódio em que Bob Esponja e o Senhor Siriguejo acreditam que mataram um fiscal da vigilância sanitária e passam o episódio inteiro tentando esconder o suposto corpo. A situação é tratada de forma cômica, mas a premissa em si é estranhamente macabra para um desenho infantil. Bob Esponja também ficou famoso por algumas cenas em que o desenho corta para imagens hiper realistas. Em certos momentos aparecem closes extremamente detalhados de pele, olhos ou texturas, completamente diferentes do estilo cartunesco da série. Esses cortes são rápidos, mas causam uma sensação estranha justamente porque quebram completamente a estética do desenho.

A experiência visual desse livro me lembrou bastante isso. A força da obra não está exatamente no texto, que é curto e direto, mas sim nas ilustrações. O trabalho artístico é extremamente detalhado e cheio de pequenas ambiguidades. À primeira vista você vê apenas ambientes ou objetos comuns, mas quando observa com mais atenção percebe que realmente existem rostos escondidos nas formas.

O traço consegue criar uma ambiguidade muito interessante. A gente enxerga exatamente o que a criança vê. Aquilo pode ser apenas um objeto comum, mas também pode ser um rosto olhando de volta. Essa sutileza coloca o leitor dentro da mente da protagonista e faz com que a leitura seja muito mais imersiva.

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Mesmo sendo um livro curto, ele também levanta uma reflexão interessante sobre como crianças também podem lidar com entendimentos diferentes do mundo, medos e até questões psicológicas. Muitas vezes associamos esse tipo de experiência apenas ao universo adulto, mas a história mostra que a percepção infantil também pode ser complexa e inquietante. As artes são belíssimas e trabalham muito bem essa ambiguidade visual, ao mesmo tempo em que a última página me causou uma reação física muito forte. Uma sensação de aflição misturada com uma espécie de agonia, quase uma coceira nervosa. Foi um final que realmente me deixou desconfortável.

Eu gostei muito do livro. Pode ser curioso dizer que amei a experiência de leitura, mas que também é o tipo de livro que eu não tenho vontade de ler novamente — justamente porque ele faz muito bem aquilo que se propõe a fazer: deixar o leitor um pouco perturbado.

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Nathalia Souza

Artista, tradutora, animadora, programadora e ainda com formação em mecâtronica e marketing, sou uma menina que não sabe bem o que quer da vida. Emo de carteirinha, vivo indo em shows e eventos para aumentar minha coleção de memórias. Vivo no mundo da lua, e talvez seja por isso que me considero astronauta.

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