Review | Como Matar um Príncipe

Quando vi o título de “Como Matar um Príncipe“, pela primeira vez, minha reação foi de choque. É um título que chama atenção imediatamente e levanta uma pergunta simples: por que alguém precisaria matar um príncipe? Ao ler a sinopse e perceber que se tratava de um conto de fadas com um tom mais sombrio, minhas expectativas ficaram bastante altas.

A história acompanha Marra, a princesa caçula de um reino pequeno e politicamente frágil. Ela vive à sombra de duas irmãs: Damia, a mais velha, e Kania, a do meio. O reino delas não possui grandes riquezas nem poder militar significativo. Seu único verdadeiro diferencial é um porto estratégico extremamente valioso para o comércio. Esse detalhe geográfico aparentemente simples se torna o centro de toda a tensão política da narrativa.

O problema é que dois reinos maiores cercam esse território. Eles nunca declararam guerra, mas existe uma sensação constante de que podem fazê-lo a qualquer momento e, se decidirem invadir, possuem força para isso. A principal razão para essa possível invasão seria justamente o porto, algo que nenhum dos reinos vizinhos possui. Por causa dessa situação delicada, a rainha, mãe de Marra, Damia e Kania, precisa manter uma diplomacia extremamente cuidadosa. Ela vive equilibrando alianças e tentando evitar qualquer conflito que possa colocar o reino em risco. É nesse contexto que surge a proposta de casamento entre uma das princesas e o príncipe de um desses reinos.

A primeira a se casar é Damia. Ela era a filha mais querida, a mais admirada e também muito próxima de Marra. A morte dela acontece logo depois do casamento, em circunstâncias extremamente suspeitas. Ninguém declara oficialmente o que aconteceu, mas a sensação é clara: algo está muito errado. Há uma brecha que dá a entender que a Damia está viva, mas é esquecida. Acredito que a autora deixou dessa forma para se passar como a imaginação de uma criança, porque Marra ainda era bem pequena quando Damia faleceu.

Foto/Reprodução: Michael Grego

Mesmo assim, por razões políticas, Kania acaba assumindo o lugar da irmã e se casa com o mesmo príncipe. Esse é um dos pontos mais interessantes do livro. A reação imediata de quem lê, pode ser pensar que a rainha está sendo cruel ou irracional ao permitir que outra filha vá para o mesmo destino. No entanto, o livro apresenta essa decisão dentro de um contexto político muito realista.

Leia também

Ou seja, a rainha não está fazendo uma escolha entre o bem e o mal. Ela está escolhendo entre tragédias possíveis. Sacrificar a felicidade e talvez a vida de uma filha pode ser a única forma de evitar a destruição de todo o reino.

Achei essa construção extremamente interessante porque foge de um tipo de narrativa muito comum em histórias de fantasia, em que personagens estão dispostos a colocar o mundo inteiro em risco para salvar uma única pessoa querida. Aqui, a responsabilidade política pesa mais. Existe uma dimensão coletiva que torna tudo mais complexo e mais doloroso. Depois desses acontecimentos, Marra é enviada para um convento, mas não se torna freira, apenas passa a viver ali durante muitos anos. O convento funciona quase como uma forma de protegê-la e, ao mesmo tempo, tirá-la do centro das decisões governamentais.

Essa parte inicial do livro cria uma atmosfera muito forte. Existe uma sensação constante de vigilância, medo e desconforto. Marra sabe que, se algo acontecer com Kania, ela pode ser a próxima da fila. A qualquer momento sua vida pode ser decidida por motivos diplomáticos que estão muito além de seu controle. Essa tensão inicial é uma das coisas que mais gostei na história. O clima é sombrio, quase claustrofóbico. A sensação é de que algo inevitável está se aproximando.

Foto/Reprodução: Jesz_Art

Outro aspecto que achei positivo é que Marra não é a típica protagonista adolescente da fantasia. Ela tem 30 anos, o que já muda bastante a forma como ela pensa, age e observa o mundo. Seu par romântico, Fenris, tem cerca de 40 anos, e a relação entre eles aparece de forma muito discreta ao longo da narrativa. Na verdade, quem estiver procurando um casal cheio de romances pelo livro, provavelmente vai se decepcionar. Somando todas as interações românticas, talvez não chegue a duas páginas. O romance existe, mas claramente não é o foco da história. O centro da narrativa é o plano de Marra para salvar Kania e enfrentar o príncipe.

Apesar de todos esses elementos interessantes, alguns pontos da história me incomodaram. Um deles é a relação entre as irmãs. As duas passaram grande parte da vida brigando e se odiando. O livro mostra que elas tinham um relacionamento bastante conflituoso. Mesmo assim, a principal motivação de Marra é salvar essa irmã. Não é impossível imaginar alguém querendo salvar um familiar mesmo após anos de conflito e relações familiares complexas, mas ainda assim senti que o livro poderia ter trabalhado melhor essa motivação. Em alguns momentos, parece que essa decisão surge mais como um impulso moral da protagonista do que como algo profundamente construído na narrativa.

Outro ponto que me chamou atenção foi a questão do tempo. O livro cobre aproximadamente 18 a 20 anos de acontecimentos, ao longo de quase 350 páginas. Em alguns momentos, essa passagem de tempo parece rápida demais. Certos eventos importantes são mencionados ou resolvidos com muita velocidade, sem tanto aprofundamento emocional ou narrativo. No entanto, para mim, o maior problema da história foi a falta de uma curva de dificuldade consistente.

Durante muitos anos, Marra vive no convento observando de longe o sofrimento de Kania. A situação da irmã piora cada vez mais. Em determinado momento, Kania tem uma filha. Depois, essa filha morre. A própria Kania vai definhando física e emocionalmente. Tudo isso reforça a sensação de que algo precisa ser feito. O início da narrativa constrói muito bem essa ideia de desespero. Parece que Marra está diante de um problema praticamente impossível de resolver.

Foto/Reprodução: glovepaint

Porém, quando ela finalmente decide agir e começa a reunir aliados para matar o príncipe, muitas coisas passam a funcionar com facilidade demais. Obstáculos que pareciam enormes acabam se resolvendo rapidamente. Personagens surgem e ajudam sem que exista um grande custo ou risco envolvido.

Ao longo da jornada aparecem elementos muito curiosos e potencialmente interessantes, como uma galinha demoníaca, um cachorro feito de ossos e outras figuras mágicas que se juntam ao grupo. A ideia em si é bastante criativa e até divertida. O problema é que muitos desses elementos parecem ter pouca função ao longo da história. Alguns deles praticamente só ganham relevância no final, o que dá a impressão de que foram inseridos na narrativa sem um desenvolvimento completo. Essa facilidade na resolução de problemas acaba afetando o tom da história. O começo tem uma atmosfera muito pesada e sombria, com uma sensação constante de perigo e inevitabilidade. Conforme a narrativa avança, o tom se torna mais leve em alguns momentos, chegando perto de um drama com toques de humor. Isso não é necessariamente ruim, mas cria um contraste forte com a promessa inicial.

Sem entrar em spoilers, o final também segue essa mesma lógica. A resolução acontece de forma relativamente rápida e simples para algo que parecia tão complexo no início da história. Não diria que o final é ruim, mas senti que faltou um pouco mais de tensão ou dificuldade real para que o desfecho tivesse um impacto maior.

Mesmo com essas críticas, “Como Matar um Príncipe” continua sendo um livro com uma premissa extremamente interessante. A ideia de misturar política, contos de fadas sombrios e uma protagonista mais velha funciona muito bem em vários momentos. Enquanto eu lia, não pude deixar de imaginar como essa narrativa funcionaria bem em uma adaptação audiovisual. Acredito que “Como Matar um Príncipe” tem muito potencial para virar uma série ou filme muito interessante, especialmente se mantiver a tensão que aparece nas primeiras páginas do livro.

Foi uma leitura que começou com expectativas altíssimas e que, apesar de alguns problemas na execução, ainda trouxe ideias muito criativas e um universo que eu gostaria de ver sendo explorado de outras formas e com mais profundidade.

Gostou? Comente aqui e siga a gente no instagram

Nathalia Souza

Artista, tradutora, animadora, programadora e ainda com formação em mecâtronica e marketing, sou uma menina que não sabe bem o que quer da vida. Emo de carteirinha, vivo indo em shows e eventos para aumentar minha coleção de memórias. Vivo no mundo da lua, e talvez seja por isso que me considero astronauta.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Voltar ao Topo