Review | O Primata

“Lá vem o homem macaco correndo atrás de mim
O homem macaco que não tem alma e nem coração
Gritando tão alto querendo me pegar
Se esse cara me pega ele vai me matar”

É com esse trecho que eu consigo descrever perfeitamente o que é O Primata.
E não, o filme não começa enganoso. Muito pelo contrário: a primeira cena já é morte, já é tiro, porrada e bomba, já é pra você entender que aquilo ali não veio pra brincar. A partir do momento em que Ben entra em cena, o filme faz questão de estabelecer medo — e consegue.

A trama acompanha Lucy (Johnny Sequoyah), que retorna para casa para passar um tempo com a família e rever amigos. Esse retorno acontece em um contexto delicado: a mãe, linguista, faleceu antes de falecer de câncer, e essa ausência ainda pesa sobre todos. O pai, Adam (Troy Kotsur), é um escritor extremamente famoso, vive viajando e pouco presente. Erin (Gia Hunter), a irmã mais nova, já é adolescente e carrega um sentimento constante de abandono, intensificado tanto pela morte da mãe quanto pela ausência do pai e pela saída de Lucy de casa para fazer faculdade, o que coincidiu com o período do luto.

Ben (Miguel Hernando Torres Umba), o primata, foi o grande projeto da vida da mãe. Ele não é apenas um animal de estudo: vive com a família, usa roupas, se comunica por tablet e ocupa um espaço afetivo dentro daquela casa. O filme até encosta na questão da humanização dos animais, mas eu não vou entrar muito nesse debate, se é certo ou errado, porque, independentemente disso, esse vínculo é o que torna tudo o que acontece depois ainda mais tenso.

Foto/Reprodução: O Primata

A história se passa no Havaí, um lugar onde, teoricamente, não existe raiva. Ainda assim, após a aparição de um morcego no recinto de Ben, o improvável acontece: ele contrai a doença. A partir daí, o filme mergulha de vez no terror, apostando em tensão constante, imprevisibilidade e uma claustrofobia real e não psicológica, mas física mesmo. Em vários momentos, os personagens ficam presos em espaços pequenos, como a piscina, que vira um refúgio justamente porque Ben, com raiva, tem medo de água. E acaba meio que virando um Escape Room

Um dos pontos que eu mais gostei é que os personagens não são burros. As decisões fazem sentido dentro do pânico. Inclusive, a primeira solução que eu pensei (a primeira mesmo!) um personagem tenta. E morre na hora. Foi de arrasta pra cima instantaneamente, escalado para jogar no Vasco. Então ou os personagens não são burros… ou eu não sou tão inteligente quanto eu achava, porque eu teria sido facilmente a primeira a morrer também.

A tensão funciona porque Ben não é só forte, ele é inteligente. Não dá pra sair no soco com um macaco, ainda mais com um que foi treinado para se comunicar, resolver problemas e interagir como um humano. Some isso ao fato de ele estar doente, agressivo e imprevisível, e você tem uma ameaça constante, que nunca deixa o filme respirar.

Foto/Reprodução: O Primata

O gore é pesado. O Primata não tem medo nenhum de mostrar violência com detalhe, e isso pesa bastante na experiência. Eu não sou sensível a gore, mas fiquei genuinamente chocada em alguns momentos no cinema. O filme tenta, sim, trabalhar questões emocionais e familiares e até chega lá em certos pontos mas, no fim, o gore acaba falando mais alto do que o drama.

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Sobre a raiva em si: eu não sou especialista e não sei dizer se a doença foi retratada de forma totalmente responsável ou fiel à realidade. O que eu sei é que, depois desse filme, eu tenho mais certeza do que nunca de que jamais vou atrasar a vacina antirrábica de nenhum dos meus bichos.

No final, O Primata até tenta ser um filme sobre feridas emocionais, abandono e laços familiares e começa e termina falando sobre isso, de forma cíclica, mas o que realmente marca é a violência, a tensão e o impacto visual.

Se você for no cinema, por favor, faça isso assim que chegar na sala:

Foto/Reprodução: https://mega.nz/file/pm5XHaqD#MEE9W2tpzGEYT0krB147vvg3X7o046EHLIKifWaHSLo

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Nathalia Souza

Artista, tradutora, animadora, programadora e ainda com formação em mecâtronica e marketing, sou uma menina que não sabe bem o que quer da vida. Emo de carteirinha, vivo indo em shows e eventos para aumentar minha coleção de memórias. Vivo no mundo da lua, e talvez seja por isso que me considero astronauta.

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