Review | A Vingança de Charlie

A Vingança de Charlie é um suspense psicológico de aproximadamente 75 minutos que acompanha a rotina isolada de sua protagonista após um evento traumático. Ambientado quase inteiramente em um único espaço, o filme constrói sua narrativa a partir do silêncio, da repetição e da tensão psicológica, propondo um olhar contido sobre trauma, sobrevivência e vingança.

Atenção, contém spoilers

A Vingança de Charlie aposta mais na construção psicológica da protagonista do que na ação propriamente dita. O problema é que essa escolha, embora conceitualmente interessante, cobra um preço alto no ritmo: a ação efetiva só acontece nos minutos finais, a partir do minuto 70, quando o filme já se aproxima do fim.

A narrativa se passa praticamente em um único espaço: a casa onde Charlie (Kathleen Kenny) vive isolada após sofrer um trauma profundo. Ela trabalha em home office, mantém pouco contato com outras pessoas e tenta, à sua maneira, seguir em frente. Esse retrato é um dos pontos mais delicados e, ao mesmo tempo, mais honestos do filme. O estresse pós-traumático não é tratado de forma performática ou espetacularizada. Não há grandes explosões emocionais, surtos cinematográficos ou cenas “para brilhar”. O que vemos é uma tentativa silenciosa de sobrevivência, de manutenção de rotina, de cura possível dentro do cotidiano. Isso exige respeito, tanto à personagem quanto às vítimas reais que passam por situações semelhantes, e o filme acerta ao não transformar o trauma em espetáculo.

Foto/Reprodução: A Vingança de Charlie

Por outro lado, essa opção acaba caindo na monotonia. A vida comum de Charlie é coerente com sua condição, mas o filme poderia ter encontrado formas mais criativas de trabalhar essa quietude, especialmente investindo mais no suspense. Durante boa parte da projeção, somos levados a acreditar que Charlie pode estar alucinando: ruídos, presenças estranhas, sensações de ameaça constante. Essa ambiguidade é interessante, mas pouco explorada. Quando se revela que ela não está alucinando e que o homem que a violentou realmente está por perto, a sensação é de que o filme desperdiçou a chance de aprofundar essa tensão psicológica.

O espaço único reforça uma sensação claustrofóbica que funciona bem, mas também gera um certo julgamento por parte do espectador: por que Charlie permanece sozinha, se acredita que seu agressor não foi preso? Se ela tem consciência de que ele pode voltar, por que não buscar ajuda? Essas dúvidas só encontram resposta no final, o que justifica a escolha narrativa, mas até lá causam um desconforto que parece mais estrutural do que intencional.

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O título, A Vingança de Charlie, também carrega expectativas específicas e o filme subverte parcialmente isso. A vingança acontece, mas não é plena, nem prazerosa. Não há catarse. O desfecho é frio, seco, quase anticlimático. Charlie vence, mas não “ganha”. A sensação não é de alívio, e sim de esvaziamento. Ainda assim, o final parece apressado, como se o filme acelerasse justamente quando deveria respirar um pouco mais.

Foto/Reprodução: A Vingança de Charlie

Alguns elementos funcionam bem como plot, como a falsa gravidez, que se revela, na verdade, uma arma de precaução, e o fato de o agressor passar grande parte do filme mascarado, sem que conheçamos seu rosto. Ele acredita estar no controle, quando, na realidade, Charlie sempre esteve alguns passos à frente. Essa inversão de poder é um dos aspectos mais interessantes da obra.

Já a escolha de fazer Charlie trabalhar como atendente de uma linha de apoio nos Estados Unidos soa conveniente demais. A facilidade com que certas conexões acontecem dentro desse sistema tira um pouco do realismo da narrativa. Não se trata de exigir um retrato documental, o filme não se propõe a isso, mas, ao lidar com temas tão sensíveis e recorrentes na realidade, como estupro, violência contra a mulher e trauma, é necessário um cuidado maior para não simplificar demais processos que, na vida real, são extremamente complexos.

No fim, A Vingança de Charlie não é um filme ruim. Ele tem ideias interessantes, um olhar respeitoso sobre o trauma e uma protagonista que sustenta a narrativa. Mas também sofre com ritmo arrastado, oportunidades de suspense pouco exploradas e um desfecho corrido. É uma obra que provoca mais reflexão do que impacto, e talvez esse seja tanto seu mérito quanto sua limitação.

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Nathalia Souza

Artista, tradutora, animadora, programadora e ainda com formação em mecâtronica e marketing, sou uma menina que não sabe bem o que quer da vida. Emo de carteirinha, vivo indo em shows e eventos para aumentar minha coleção de memórias. Vivo no mundo da lua, e talvez seja por isso que me considero astronauta.

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