- por Dani Goldenberg
Tem alguns momentos que deixam a gente bem Fernanda Torres das ideias, querendo tatuar “A Vida Presta” na testa, e essa semana eu vivi um deles. A gente foi na coletiva de imprensa do Cirque du Soleil, Alegría – In a New Light para assistir a alguns dos números do espetáculo e entrevistar parte do elenco. E olha que, nesse espetáculo, está cheio de brasileiro para podermos morrer de orgulho. São 8, entre os trapezistas, um dos palhaços e uma das cantoras, a Cantora de Preto.
Alegría existe desde 1994 e, nesta nova versão, o Cirque revisita e atualiza um dos seus espetáculos mais conhecidos sem abrir mão da identidade que fez dele um clássico. Em uma mistura de acrobacias, música ao vivo (de arrepiar), figurinos e maquiagens lindíssimos, personagens cativantes e toda aquela grandiosidade que a gente espera quando vê o nome Cirque du Soleil. Alegría – In a New Light já estreou em São Paulo e a palavra certa pra defini-lo é imperdível.
Mesmo diante de tanto encantamento, o que acontece por trás do espetáculo também é bastante fascinante. Conversando com os artistas, pude entender um pouco mais sobre a preparação, a rotina e a responsabilidade de entregar tudo aquilo em espetáculo após espetáculo. Algumas vezes, três por dia. Então peguei minha carteirinha de nerd do Cirque e perguntei o que eu realmente queria saber.
Começamos pelos artistas do Trapézio Voador, Luiz Felipe, Pati Kuwai e Geilson Santana:

Eu, Astronauta: Vocês fazem muitos shows por semana, e como vocês treinam muito, o corpo acaba sabendo no automático. Já aconteceu de ficar no automático em algum momento em que não podia, em que você precisava estar atenta?
Pati Kuwai: “Olha, não vou mentir, porque já. Realmente, a gente faz muitos shows, normalmente em média 10 shows por semana, e é comum, porque a gente está sempre nesse mesmo ambiente, é o mesmo show, mas é diferente, cada dia é diferente e eu tento me policiar muito para não entrar nesse modo automático, porque é justamente quando as coisas podem acontecer. Então eu tenho muita consciência do quanto o que eu faço é arriscado, e tento me policiar muito pra evitar isso.”
Eu, Astronauta: “E vocês têm rotinas diferentes para dias e apresentações diferentes? Por exemplo, se no sábado vocês têm três apresentações, vocês alteram um pouco o que vão fazer em cada uma ou fazem as mesmas acrobacias nas três?”
Pati Kuwai: “Depende muito, depende de como o time está. Se estamos com o time completo, às vezes tem mais possibilidades de revezar certas coisas, mas no geral, é sempre igual. Se tivermos 3 shows, vão ser os três shows iguais.”
Depois, conseguimos conversar um pouquinho com a Cassia Raquel, voz da Cantora de Preto (a palavra-chave aqui é VOZ, porque ela cantando é um espetáculo à parte).

Eu, Astronauta: “Alegría, tanto o espetáculo quanto a música tema, são extremamente conhecidas pelo público do Cirque du Soleil. Existe uma responsabilidade diferente em cantar uma música que já está tão presente na memória e no coração das pessoas?”
Cássia Raquel: “Tem muita, porque as pessoas ainda têm muito marcado a voz original e o arranjo original. Tem muita gente que ainda tem muita resistência com o novo, como em qualquer adaptação, igual filme, a mesma coisa. Mas é sempre bom, porque tem muita gente que acaba quebrando isso, que está aberta. É difícil, mas acho que a minha maior responsabilidade é cantar com a minha identidade, porém mantendo a essência do que foi escrito.
Esse é um trabalho que a gente faz muito até quando faz franquia de outros musicais, a gente canta a mesma partitura, mas com a nossa cara e o nosso jeitinho, e a nossa voz, então aqui foi um pouco dessa dinâmica também. Foi mais difícil no começo, e aí, aos poucos, foi se desenvolvendo e agora eu acho que está dando certo.”
Um p.s. para dizer que ela é a mulher mais carismática do planeta inteirinho, eu tenho certeza.
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E um pouco mais dos artistas do número de Trapézio Voador (que só fez meu coração sair do peito umas 3 vezes, bem tranquilo, esqueci de respirar), Alexandre Atta, Julio Cezar e Fabio Farfan:

Eu, Astronauta: “Quando vocês estão fazendo as acrobacias, normalmente dá tudo certo. Mas vocês têm um código pra se comunicar quando alguma coisa não sai exatamente como o esperado e precisa de algum ajuste?”
Julio Cezar: “Sim, nós temos muitos treinamentos e muitas maneiras de que, mesmo quando algo não dá certo, vocês não percebam. Então isso também é parte do nosso treinamento, para oferecer pra vocês a melhor experiência possível.”
Eu, Astronauta: “Vocês que fazem toda a maquiagem, se arrumam com o figurino e têm que estar prontos pra subir no palco por conta própria. Esse processo de aprender a arrumar tudo isso mudou a transformação de vocês como pessoa para vocês como personagens do espetáculo?”
Fábio Farfan: “A gente tem que encarnar o personagem que está representando no palco, e nós temos os diretores e coreógrafos que nos ensinam como tirar o nosso melhor ali dentro. Eles são os anjos (trapezista acrobático), eu sou do Bronx (trapezista aparador), então nós somos completamente diferentes. Eles são mais elegantes, a gente é a juventude, meio louca, que vem pra revolucionar o reino. E a maquiagem também, a gente passa por um processo de treinamento. São dias, semanas, até ficar perfeito, então isso leva tempo. E cada vez que a gente entra ali, a gente coloca um pouquinho do nosso pessoal no personagem. É muito gostoso, é satisfatório poder fazer isso, incrementar e dar um gostinho nosso também no personagem”
Depois foi a vez do Thiago Andreuccetti, que é um dos palhaços.

Eu, Astronauta: “Qual é o papel dos palhaços no espetáculo Alegría?”
Thiago Andreuccetti: “Eu sou um dos palhaços e nós trabalhamos em dupla, então a minha dupla é estadunidense, e os palhaços são o núcleo dramático do show. Nós costuramos todo o show do início ao fim, com números que evocam a amizade, as relações humanas e o quão difícil é ser humano nessa vida.”
Eu, Astronauta: “E o quão difícil é passar isso num espetáculo em que vocês falam em uma língua inventada?”
Thiago Andreuccetti: “Pra isso, a gente se vale das técnicas de teatro físico e do estudo das emoções mesmo, então cada cena é baseada em uma emoção humana e a gente desenvolve isso de uma maneira muito simples, na verdade, pra poder se conectar com a plateia. Em última instância, o que a gente quer é a conexão com a plateia.”
E por fim, encerramos com a Rachel Lancaster, Diretora Artística do Cirque.

Eu, Astronauta: “Alegría é um show que está em cartaz desde 1994, e essa é uma versão adaptada e atualizada dele. Qual foi o maior desafio nesse processo, num sentido de decidir o que precisava mudar e o que precisava ser mantido para que Alegría ainda fosse Alegría?”
Rachel Lancaster: “Eu acho que o maior desafio foi todo mundo compartilhar do mesmo entendimento sobre o que faz do Alegría o Alegría. Então antes mesmo de começarmos a criação do espetáculo, tivemos muitas conversas, muitas discussões a respeito. As pessoas são muito apaixonadas por esse espetáculo e o que ele foi. Uma vez que conseguimos filtrar a essência, então começamos a olhar para todos os outros aspectos do show. 1994 até 2019, tivemos muitas oportunidades e diferenças pra prestar atenção. A prioridade era garantir que o espetáculo se comunicasse com a audiência atual, em 2019, mas os nossos shows ficam em cartaz por 10, 15, às vezes 20 anos. Então como ele se comunicaria com a audiência em 2039, potencialmente, também? A base que dá o fundamento para o nosso show que é uma história que é muito universal. Você vê ela se repetindo ao longo da história em diferentes locais, não é única de um lugar só do mundo. Foi isso que nos deu a base principal. Mas nada é idêntico a como era no show antigo”
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Cirque du Soleil – Alegría, In a New Light estreou no Parque Villa Lobos, e ficará em cartaz por aqui até o dia 8 de novembro. Depois, eles vão para Curitiba, onde ficarão em cartaz de 19 de novembro até 13 de dezembro. Os ingressos podem ser comprados no site da Eventim.
Dani Goldenberg
Sou formada em Letras e passei 9 anos trabalhando em escolas, mas fugi para o marketing, então agora sou gerente de projetos, o que geralmente significa "babá de adultos". Meu quarto tem livros demais e eu tenho esperança de que um dia vou ler todos. O dinheiro que não vai para eles costuma virar ingresso de show, viagens, comida boa e qualquer coisa relacionada a gatos. Minha vibe é 50% gótica e 50% princesa do glitter, estou aprendendo a ler tarot e sou uma cantora de chuveiro extremamente dedicada. Minha personalidade foi moldada por filmes dos anos 2000, Disney Channel e pelos livros da Meg Cabot, especialmente A Mediadora. Meu traço tóxico é discutir com pessoas que eu conheço para defender pessoas que eu não conheço, então fica o aviso: nunca fale mal da Pink perto de mim.
