Existem livros que a gente lê e outros que simplesmente nos atropelam. Minha história com a escrita visceral de Raphael Montes começou assim: como um segredo mal contado que ficou martelando na minha cabeça por oito anos. Entre uma página folheada por acaso em 2016 e a redescoberta recente, percebi que o suspense brasileiro tem um rosto — e ele não tem medo de nos fazer sentir náusea. Mas afinal, entre tramas brilhantes e finais que dividem opiniões, eu sou fã ou hater?

Anos Depois, a Redescoberta
Vamos voltar um pouco no tempo… Tudo começou em 2016, dentro de uma livraria Saraiva. Na época, eu trabalhava no shopping e sempre passava por lá. Em um desses dias, folheei um livro qualquer — e bastou virar uma página para algo me marcar profundamente. De repente caí em um trecho que mostrava uma conversa de WhatsApp entre três rapazes, combinando de ir até um hospital roubar um corpo. Aquilo me intrigou na hora. Eu até tentei memorizar o nome do livro mas, como era de se esperar, esqueci.
Muito tempo depois, pelo menos uns 8 anos, aquela cena voltou à minha cabeça. E, sem pensar duas vezes, eu fui atrás do livro e o encontrei — era “O Jantar Secreto“.
O Impacto da Escrita de Raphael Montes
Desde o início, o que mais me prendeu em “O Jantar Secreto” foi a forma dinâmica como Raphael Montes constrói cenas, personagens e, principalmente, seus desejos mais obscuros. O livro praticamente te engole, e você só consegue parar quando termina. Ainda assim, há pausas inevitáveis — não por tédio, mas porque falta fôlego diante da sequência de plot twists e situações chocantes que muitas vezes beiravam o nojo. Além disso, fica claro que o autor não economiza: é impacto atrás de impacto, sem aviso e sem suavizar nada, fazendo um paralelo muito forte com os crimes de milícia, abatedouro animais ilegais, entre outros tantos temas importantes a serem discutidos. Fora a banalização da carne. É fantástico.

O Jantar Secreto: Entre o Fascínio e o Incômodo
De modo geral, a leitura é desconfortável, em alguns momentos até indigesta. A história acontece no Rio de Janeiro, onde quatro amigos alugam um apartamento de luxo no bairro de Copacabana. Dante trabalha em uma livraria, “Leitão” é um gênio da informática, hacker, o famoso come e dorme. Miguel é mais sóbrio, mais sério e estagiário de Medicina e por fim, Hugo o gastrônomo vaidoso (até demais). Mas como nem tudo são flores, o que parecia fácil fica difícil e os jovens acabam endividados. Para resolver esse problema como adultos, sem recorrer a carteira dos pais, eles começam a organizar jantares exclusivos…
A narrativa é fluida, e história é extremamente bem amarrada, daquele tipo que dá gosto de acompanhar, com uma ressalva importante: o final. Depois de uma sequência de acontecimentos brilhantes, me deparei com um desfecho que, para mim, ficou apenas mediano. Meh. Quase sem graça diante da magnitude da obra. Terminei a história impactada com um final preguiçoso. OK. Diante disso, surgiu uma dúvida inevitável: seria um problema específico desse livro? Ou todos os finais que ele escreve são assim? “Sem gracinha”, comparado ao enredo?
Foi então que decidi explorar outras obras do autor, pois precisava entender se eu era fã ou hater.
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“Suicidas”: “É impressionante a atração humana pela desgraça alheia.”

Em seguida, li “Suicidas“, e a experiência foi, no mínimo, sofrível. Trata-se de uma história onde 9 jovens da elite carioca são encontrados mortos dentro de um porão em um sítio em condições super misteriosas. O que leva a entender se tratar de “uma ideia genial”: Roleta Russa. É narrado por Alessandro, que escreve tudo o que consegue em seu caderno de anotações que por sua vez, viraria uma espécie de diário, contanto a história por trás da cena do ocorrido.
A história é extremamente densa, pesada e repleta de ferramenta pra maluco a meu ver. Aborda temas como abandono, bullying, vícios, traumas, homofobia, capacitismo, gordofobia, manipulação psicológica e uso de drogas. Nos faz questionar se realmente conhecemos quem chamamos de amigo. O que leva jovens ricos e de boa vida a chegar em tal extremo? Embora o enredo seja impactante, não considero uma leitura para qualquer pessoa, especialmente jovens. Afinal, vivemos em uma realidade já bastante complexa, (vide o jogo baleia azul que rolava na internet e fazia com que os jovens fossem manipulados até chegarem nos finalmentes) o livro traz elementos de misoginia e brutalidade que podem ser difíceis de digerir ou até pode dar sugestões pra essa galerinha em formação. O que na minha humilde opinião que ninguém solicitou: é extremamente delicado e perigoso. Para essa galera, costumo indicar a leitura do “13 Porquês” do autor Jay Asher. O livro não é tão abrangente quanto a montagem da Netflix e é muito bem elaborado, o que gera uma compreensão menos impactante.
A “Fórmula” do Autor
Apesar disso, percebi um padrão interessante entre as duas histórias. Tanto em O Jantar Secreto quanto em Suicidas, existe uma espécie de “fórmula” narrativa muito característica. As histórias costumam girar em torno de um grupo de amigos com papéis bem definidos: o narrador moralmente ambíguo, o manipulador ou líder, o impulsivo e aquele que aparenta ser mais ético, mas acaba cedendo. Além disso, os personagens são construídos a partir de memória e interpretação, carregando traumas, segredos e motivações ocultas.
Dinâmicas, Segredos e Pressão Moral
No centro de tudo está a dinâmica do grupo: relações tensas, segredos compartilhados e silêncios carregados de significado. Nada acontece de forma imediata. Pelo contrário, o autor planta o desconforto aos poucos e aumenta gradualmente o peso moral até que tudo se torna insustentável. Nesse momento, surgem as decisões erradas. Os personagens fazem escolhas extremamente questionáveis e, ainda assim, justificam, relativizam e convencem a si mesmos. É justamente aí que a leitura se intensifica, porque nos questionamos: Até onde minha moral deixaria que eu fosse?
Mistério e Narradores Não Confiáveis e Violência com Propósito
Outro elemento constante é o mistério. Sempre há algo oculto, um segredo sendo cuidadosamente escondido. Como resultado, a curiosidade se mantém alta e é recompensada com revelações graduais. Nada vem de forma fácil. Além disso, o narrador raramente é totalmente confiável, o que obriga o leitor a montar o quebra-cabeça aos poucos.
A violência, por sua vez, não está presente apenas para chocar. Ela incomoda, estabelece limites — ou evidencia a ausência deles — e marca pontos de ruptura dentro da narrativa.
“O Vilarejo”: Estranhamento que Funciona
Por outro lado, em O Vilarejo encontrei uma proposta diferente. Num primeiro momento, a estrutura causa estranheza, mas logo a leitura engata. Não é uma história confortável; ao contrário, é feita para provocar e gerar reflexão moral. Em diversos momentos, me vi no lugar dos personagens, questionando meus próprios limites. Inclusive, precisei pausar a leitura algumas vezes, ( uma dessas pausas aconteceu lendo ao segundo capítulo no trem, quase vomitei) pois há trechos difíceis de digerir, dão nervoso, a sensação de injustiça vem em crescente. Quando você repara, tá hiperventilando. Ainda assim, a construção é fascinante. O livro apresenta o cotidiano de um vilarejo esquecido, onde a fome é constante e a vida cada vez mais escassa. Além disso, as histórias se interligam de forma surpreendente, com reviravoltas “ABSOLUTE CINEMA” a cada capítulo.

Um dos Melhores Finais
Diferente de outras obras do Raphael, aqui me arrisco a dizer que este um dos melhores finais que já li dele. É simples, mas extremamente eficaz, o que faz com que a leitura valha a pena. Até aplaudi depois que terminei.
“Uma Mulher no Escuro”: Tensão do Início ao Fim

Por fim, em Uma Mulher no Escuro, o autor entrega um thriller intenso. O livro conta a história de Victória, que quando criança vê sua família sendo brutalmente assassinada com os rostos pintados de preto. Anos depois, ela volta pra casa e sua pelúcia de conforto está pichada de preto e ela se depara com uma mensagem no espelho. O assassino está de volta para assombra-la ou, acabar o que terminou. A tensão é constante, e a sensação de perigo nunca desaparece. Além disso, as viradas na trama são surpreendentes e difíceis de antecipar, fazendo com que, em alguns momentos, seja necessário parar apenas para respirar (como de costume).
“Dias Perfeitos”: Perfeito pra quem?

Diferente de outros livros do Raphael Montes, Dias Perfeitos não me prendeu de cara. Demorou um pouco pra engatar. Mas, quando engatou, foi daquele jeito: terminei em dois dias.
E muito disso vem do Téo. O estudante de medicina. Ele por vez, é obcecado por Clarice, que claramente o rejeita com educação, mas o Téo é o famoso redpill que não aceita não e sequestra a menina.
Desde o começo, não gostei dele. Não foi nem uma antipatia leve — foi rejeição mesmo. Tem algo nele que soa falso, estranho, deslocado. E isso aparece antes mesmo de qualquer coisa mais pesada acontecer.
O mais incômodo é que ele não parece perdido ou inconsciente do que faz. Muito pelo contrário. Ele cria justificativas próprias, baseadas no que ele sente, no que ele acha certo, no que ele quer. É como se ele construísse uma lógica interna que valida tudo — e isso torna tudo ainda mais perturbador.
Não tem um aspecto nele que não incomode. É repulsa do começo ao fim.
O que pensando bem a fundo, é um assunto muito atual e quente na nossa sociedade. Onde mulheres são sequestradas, abusadas, agredidas por homens pelo simples fato de dizer não todos os dias.
Clarice merecia mais.
Curiosamente, o final do livro não me marcou tanto quanto as páginas anteriores. Não ficou na minha cabeça da mesma forma — o que é até estranho, considerando o quanto a leitura me afetou durante o processo.
Talvez porque o peso da história esteja muito mais no caminho do que na chegada. Na sensação de desconforto constante, na construção da relação doentia, na angústia acumulada. No fim, Dias Perfeitos não é sobre o desfecho.
Inclusive, assisti também a série produzida pelo Globoplay em 2025. Nela, podemos observar o ponto de vista da vítima, Clarice diferente do livro que é mais focado no ridículo do Téo. Aproveitando o gancho, pra quem tá conhecendo o trabalho do Raphael agora, ele assina bastante roteiros, como Beleza Fatal, os Outros, Bom dia Verônica e Uma Familia Feliz (Talvez tenha mais, por hora assisti só essas e aceito recomendações).
Falando em “Uma Familia Feliz”…
“Uma Família Feliz”: Só que sem o feliz.

Nas minhas pesquisas rápidas sobre, vi que o livro nasceu baseado no roteiro cinematográfico. Ele retrata a vida de uma artesã de bonecas reborn (que por mim só aí já é assustador) que aparentemente tem a vida de comercial de manteiga que a gente vê por aí. Após a última gravidez, coisas estranhas passam a acontecer na casa quebrando toda a rotina classe média perfeita e Eva, a nossa protagonista sofre alguns apagões que a fazem questionar sua própria sanidade. Ele aborda temas também muito latentes como depressão pós parto, maternidade real e crua e aquela sensação de status, a busca pela “aparência”, afinal de contas que exemplo de família perfeita eles seriam se não fosse a aparência não é mesmo?
Eva tenta fazer o melhor que pode conciliando o trabalho com o cuidado com as Gêmeas Angela e Sara, enquanto Vicente é o provedor.
Depois da chegada do novo membro da Família, o bebê Lucas, Eva começa a ser acusada de machucar as crianças e faz com que a personagem se perca nela mesma em meio a dúvidas referente a depressão pós parto, a fragilidade do puerpério e principalmente seu estado psicológico.
No geral, é um livro incrível como todas as obras de Raphael Montes, com várias viradas sensacionais. A sensação de vigilância constante da Eva é transmitida para o leitor de um jeito muito relacionável, a gente fica desconfortável com ela até o momento de ruptura. Ela faria mesmo isso com as crianças? Ela feriria os próprios filhos?
Confesso que diante do dilema dela, o final é justo. Porém de novo, voltamos com a questão do final ligeiramente preguiçoso. Da meio a sensação de “ai vamos acabar por aqui logo”.
Mas eu também não cheguei a uma conclusão sobre o que eu faria se tivesse nessa situação.
E agora? Sou fã ou hater?
Definitivamente não posso afirmar que sou hater. Às vezes fico com vontade de pegar o sr. Raphael Montes e beijar a carequinha dele e as vezes eu tenho vontade de pegar ele pela orelha e encher de porrada. Ele é genial, sabe montar uma história de um jeito único. Coloca easter eggs em absolutamente todas as obras, o que é fantástico pra quem lê. Sério, me diverti um monte encontrando elementos das outras histórias dele nos livros.
Talvez eu tenha me decepcionado um pouco com alguns (muitos) finais? Sim. Mas eu acredito que seja muito por conta das tramas muito bem construídas e amarradas, tipo, eu esperava mais sabe? Fica aquela sensação agridoce ao terminar o livro sensacional com um final meh.
Eu gosto da escrita fácil dele, o jeito que ele cria personagens duvidosos, como ele consegue plantar a dúvida a cada página, as histórias não esfriam depois do plot, elas explodem. E pioram e pioram e a gente só consegue parar mesmo quando termina ou quando bate forte no estômago.
Então, aqui vai minha nota pra todos esses livros:
O Jantar Secreto: ★★★★
Suicidas: ★★★
O Vilarejo: ★★★★★
Uma Mulher no Escuro: ★★★★★
Dias Perfeitos: ★★★★
Uma Família Perfeita: ★★★★

Agora comecei a ler mais um dele, Criatura e Criadores. Será que vou amar? Veremos…
Sei que tem sido uma jornada divertida até aqui! E você, já leu alguma obra do divo Raphael Montes? Qual o livro que mais te impactou e porquê? E, se você gosta de acompanhar nossas aventuras pelo universo a fora, aproveita e segue a gente no Instagram!
Luah Marquezini
Oi, eu sou a Luah! Galaxy Defender desde criancinha e ARMY. Por aqui escrevo sobre KPOP mas também adoro meter meu bedelho nos assuntos pop com glitter. Também sou tatuadora e sei um monte sobre várias coisas aleatórias, conhecimento nunca é demais :)
