Review | O Diabo Veste Prada 2

Vinte anos depois, O Diabo Veste Prada retorna com uma continuação que abraça exatamente aquilo que fez o original ser tão marcante: o glamour, o desconforto e as relações de trabalho completamente tóxicas dentro de um universo que todo mundo quer, mas poucos conseguem sustentar.

Andy Sachs (Anne Hathaway) aparece como uma jornalista premiada, respeitada, alguém que construiu uma carreira sólida ao longo dos anos. Só que essa estabilidade desmorona de forma abrupta quando ela é demitida justamente em um momento de reconhecimento. E o filme acerta muito ao mostrar que, mesmo com prestígio, a realidade financeira dela é instável. Não adianta prêmio, não adianta reconhecimento, no fim precisa pagar conta. Essa escolha de mostrar uma protagonista consolidada, mas ainda vulnerável, deixa tudo muito mais real. E é exatamente isso que leva ela de volta à Runway, não por vontade, mas por necessidade.

Miranda Priestly (Meryl Streep) continua sendo uma figura imponente, mas agora envolvida em um escândalo que ameaça sua imagem e seu império. Só que aqui entra uma camada interessante: o filme tenta humanizar a Miranda. E sim, existe todo um debate enorme sobre isso, sobre ser uma mulher em posição de liderança em um mundo machista e tudo mais. Eu não vou nem entrar nesse ponto porque, sinceramente, todo mundo já está careca de saber dessa discussão. Isso não muda o fato de que não é porque ela chegou lá que ganha passe livre para ultrapassar qualquer limite. Mas o filme não ignora isso completamente. O que ele faz é mostrar outras facetas da personagem. Não só a Miranda da Runway, fria e inalcançável, mas uma versão mais… real. Mais contida, mais consciente, às vezes até perdida dentro das próprias circunstâncias.

Foto/Reprodução: 20th Century Studios

Isso gera momentos curiosos, porque ver a Miranda sendo corrigida ou tendo que medir palavras cria um contraste com tudo que ela já representou. Em alguns momentos, ela até assume um leve alívio cômico, o que não chega a incomodar, mas definitivamente muda a percepção da personagem. Ela fica mais próxima, sem necessariamente ser redimida.

E aí entra uma coisa que me deixou pensando bastante: a dinâmica entre Andy e Miranda continua estranha. Existe uma proximidade maior, uma troca diferente, mas ainda assim fica aquela pergunta constante. Por que a Andy insiste em ajudar alguém que já prejudicou tanto ela? Em vários momentos, parece que ela aceita tudo com uma naturalidade meio suspeita. E aí eu não consegui não pensar: será que isso não é quase uma síndrome de Estocolmo versão corporativa? Porque não é só necessidade financeira, tem um apego ali que vai além do racional.

Foto/Reprodução: 20th Century Studios

Inclusive, o comportamento da Andy dentro da Runway é uma das coisas mais esquisitas do filme. Fora dali, ela é confiante, segura, bem resolvida. Mas é só colocar o pé no prédio que vira outra pessoa. Fica desajeitada, insegura, tropeçando emocionalmente o tempo todo. E o mais curioso é que, mesmo sendo pressionada o tempo inteiro, ela mantém quase uma energia… positiva? E isso me lembrou muito o Bob Esponja. Aquela coisa de continuar animada, tentando dar o melhor, mesmo claramente sendo explorada e vivendo um caos. É meio absurdo, mas ao mesmo tempo faz sentido. Em vários momentos eu só pensava: mulher, reage!!

Agora, sendo bem sincera, se eu estivesse nesse filme, eu não ia ter metade dessa paciência. Eu olhava pra Miranda e soltava tranquilamente “Se o diabo veste Prada, eu visto Shein”. Ia perder o emprego mas não a piada.

Outro ponto muito forte é como o filme aborda a crise da imprensa. A Runway não está mais naquele lugar intocável. Ela está perdendo espaço no mundo digital, precisando se adaptar, negociar mais, ceder mais. E isso levanta uma pergunta muito interessante que o filme deixa no ar: é evolução abandonar o impresso ou manter a revista ainda faz sentido? Existe um valor em continuar com algo físico, tradicional, ou isso já não conversa mais com o mundo atual? E isso se conecta diretamente com o papel do jornalismo hoje. O filme questiona até que ponto a imprensa ainda consegue ser independente quando depende tanto de anunciantes e de relevância em um ambiente dominado por rapidez, influência e números. Não é uma resposta simples, e o filme nem tenta dar uma. Ele só deixa o desconforto ali, bem claro.

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Falando em estrutura, uma coisa que chama atenção é como o filme é cíclico. Se você prestar atenção nos primeiros 15 minutos, já dá pra entender muito bem o tom da história, os conflitos principais e até para onde tudo está caminhando. Ele praticamente entrega o jogo cedo. O resto da narrativa vai desenvolvendo variações em cima disso. Não chega a estragar a experiência, mas deixa tudo um pouco mais previsível.

Visualmente, continua sendo um espetáculo. Os looks, os cenários, tudo impecável. Mas existe uma valorização absurda das marcas de luxo, como Dior e Louis Vuitton, quase como se elas definissem valor, sucesso e relevância. E o próprio filme mostra que isso é, em grande parte, uma construção. Porque nem quem está dentro desse universo consegue se sustentar plenamente nele. É um ciclo de aparência, status e validação constante que cobra caro.

Foto/Reprodução: 20th Century Studios

E um momento completamente pessoal, mas impossível de ignorar: quando o personagem do BJ Novak aparece, eu comecei a rir automaticamente. Não tem como, minha cabeça vai direto pra The Office. Eu já fico esperando aquele humor meio irônico, meio desconfortável. Simplesmente não consigo desvincular.

No fim, é um filme que entrega estética, levanta discussões muito atuais sobre trabalho, status, imagem e o próprio lugar da imprensa no mundo moderno. Eu gostei bastante. não é perfeito, tem decisões que incomodam, principalmente na construção da Andy, mas ainda assim é envolvente e faz você sair pensando. E talvez esse seja exatamente o ponto.

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Nathalia Souza

Artista, tradutora, animadora, programadora e ainda com formação em mecâtronica e marketing, sou uma menina que não sabe bem o que quer da vida. Emo de carteirinha, vivo indo em shows e eventos para aumentar minha coleção de memórias. Vivo no mundo da lua, e talvez seja por isso que me considero astronauta.

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