- por Nathalia Souza
Publicado pela DarkSide Books, o Box dos Horrores reúne duas obras de Junji Ito que ajudam a entender por que o autor é considerado um dos grandes mestres do terror nos mangás. A edição traz Fragmentos do Horror e Contos de Horror da Mimi, duas coletâneas com propostas bem diferentes, mas que mostram muito bem como o autor constrói histórias inquietantes a partir de situações aparentemente simples.
Começando por Fragmentos do Horror, a sensação ao abrir o livro já é de alerta. Você está em um box chamado Box dos Horrores, lendo um livro chamado Fragmentos do Horror e escrito por um autor conhecido como mestre do terror. Naturalmente, já se entra na leitura com um pé atrás, esperando que algo muito estranho aconteça.
E acontece.
As histórias costumam começar com uma certa sutileza. À primeira vista, parecem situações quase normais, pequenas esquisitices ou detalhes estranhos do cotidiano. Mas aos poucos tudo começa a escalar. Junji Ito pega algo simples, como uma mania, uma obsessão, um comportamento incomum ou até um pequeno detalhe da vida real, e vai potencializando aquilo até transformar em algo profundamente perturbador. E “perturbador” talvez seja a palavra que melhor descreve a experiência de leitura. As histórias frequentemente levam a reviravoltas insanas. Muitas vezes você pensa que entendeu para onde a narrativa está indo, mas o desfecho segue por um caminho completamente diferente. Em vários momentos eu simplesmente pensei: “ok, eu não esperava por isso”.

Outro ponto interessante é o ritmo das histórias. Junji trabalha muito bem com velocidade narrativa. Algumas histórias já começam com caos, quase como se a gente tivesse entrado no meio do problema. Outras são muito mais lentas, construindo tensão aos poucos, criando aquela ansiedade no leitor. Você sabe que algo ruim vai acontecer, mas não sabe quando nem como. E quando finalmente acontece, muitas vezes a sensação que fica é de pura agonia.
Eu não tinha tido muito contato com o trabalho do autor antes. Meu único contato havia sido com alguns episódios da série Junji Ito Maniac: Japanese Tales of the Macabre, da Netflix. E depois de ler o mangá fica fácil entender por que as histórias dele funcionam tão bem nesse formato episódico. Cada conto tem um ritmo diferente, uma proposta diferente e um tipo de horror diferente. Isso impede que a leitura se torne previsível. Outro detalhe que me chamou atenção é que os personagens raramente caem naquele clichê clássico do terror em que alguém toma decisões absurdamente burras. Sabe aquela situação em que o público pensa “meu Deus, por que você está indo justamente para o lugar mais perigoso possível”? Aqui isso acontece muito menos. Muitas vezes as escolhas dos personagens são plausíveis dentro da situação, o que deixa tudo ainda mais desconfortável.
Já Contos de Horror da Mimi funciona de maneira um pouco diferente. A obra acompanha Mimi, uma jovem que acaba se envolvendo em várias situações sobrenaturais ao longo de diferentes histórias. Muitas dessas narrativas são baseadas em relatos de terror japoneses reunidos no livro Shin Mimibukuro, e Junji Ito faz adaptações desses relatos para o mangá. Essa estrutura muda bastante a experiência de leitura. Em vez de histórias totalmente independentes, existe uma personagem recorrente que aparece em várias situações estranhas. Algumas histórias parecem se conectar, enquanto outras funcionam quase como episódios isolados.

Pessoalmente, isso acabou diminuindo um pouco da tensão para mim. Como sabemos que Mimi aparece em várias histórias, existe aquela sensação de que, de alguma forma, ela vai ficar bem no final. Isso reduz um pouco da ansiedade que existe nas histórias independentes de Fragmentos do Horror, em que absolutamente qualquer coisa pode acontecer com os personagens. A estrutura também lembra um pouco aquele formato de séries em que algumas histórias são canônicas e outras parecem existir quase como aventuras paralelas. Curiosamente, isso me lembrou até Bob Esponja. Pode parecer uma comparação estranha em uma resenha de terror, mas a lógica é parecida: alguns episódios fazem parte da continuidade e outros simplesmente existem como histórias isoladas dentro daquele universo.
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Entre as duas obras do box, acabei gostando mais de Fragmentos do Horror. As histórias originais do autor me pareceram mais imprevisíveis, mais desconfortáveis e com finais que realmente ficam na cabeça depois da leitura. Já Contos de Horror da Mimi tem momentos interessantes, mas funciona mais como uma coletânea de relatos sobrenaturais curiosos.

Mesmo assim, o conjunto do Box dos Horrores funciona muito bem. A edição da DarkSide Books também valoriza bastante o material, reunindo dois títulos que mostram lados diferentes do trabalho de Junji Ito. De um lado, vemos o autor criando histórias originais cheias de reviravoltas e desconforto psicológico. Do outro, vemos sua interpretação visual e narrativa de relatos clássicos de terror japonês.
Para quem gosta de terror, mangás ou simplesmente quer conhecer melhor o trabalho, o Box dos Horrores é uma leitura que mostra muito bem por que o autor continua sendo uma das maiores referências do gênero.
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Nathalia Souza
Artista, tradutora, animadora, programadora e ainda com formação em mecâtronica e marketing, sou uma menina que não sabe bem o que quer da vida. Emo de carteirinha, vivo indo em shows e eventos para aumentar minha coleção de memórias. Vivo no mundo da lua, e talvez seja por isso que me considero astronauta.
