- por Rapha Reis
Quando você for assistir ao filme “Michael”, cinebiografia de Michael Jackson, já entre com a expectativa de que não será apenas uma narrativa biográfica tradicional. O filme é, na verdade, uma imersão em ordem cronológica de memórias, emoções e reflexões sobre um dos artistas mais icônicos da história da música.
A sensação que fica depois da sessão não é de conclusão, até porque existem lacunas deixadas em aberto, mas de silêncio. E isso é proposital.
Diferente de outras cinebiografias musicais, o longa não tenta transformar Michael em um símbolo distante ou intocável. Pelo contrário: ele busca aproximar o ícone do pop na sua forma mais humana. Vemos um artista no auge, praticamente impossível de ser replicado, mas também alguém profundamente marcado pela solidão, pela pressão e pela exposição constante desde muito cedo.
Logo na primeira cena, isso já fica evidente: o pequeno Michael observando outras crianças brincando na rua, enquanto seu pai o obriga a ensaiar com os irmãos mais uma vez.

A narrativa ignora algumas polêmicas envolvendo sua vida. Muitos assuntos explorados por tablóides sequer são aprofundados. O foco aqui é outro: construir um retrato sensível e emocional do homem por trás do ícone. E isso, inclusive, reforça o próprio título do filme: apenas “Michael”, e não “Michael Jackson”.
Um dos grandes acertos da produção está na escalação do elenco que interpreta o cantor em diferentes fases da vida. Na infância, o ator Juliano Krue Valdi, que interpreta o jovem Michael Jackson, entrega uma performance sensível e surpreendentemente madura. Ele consegue capturar não apenas o talento precoce de Michael, mas também a vulnerabilidade e a pressão emocional que já começavam a moldar sua trajetória. Uma mistura de inocência com o peso silencioso que torna suas cenas difíceis de ignorar.

Já na fase adulta, quem assume o papel é Jaafar Jackson, sobrinho do próprio Michael. Antes deste projeto, Jaafar não possuía uma carreira consolidada como ator na indústria cinematográfica. Ainda assim, sua performance impressiona pela entrega física e emocional, contribuindo para uma presença de cenas extremamente convincentes e em alguns momentos até “assustadores” de tanta semelhança.
Em vez de apenas imitar, ele incorpora gestos, energia e expressão, resultando em uma interpretação respeitosa, emocional e profundamente conectada ao legado do artista. A sensação que temos ê de que realmente estamos vendo Michael Jackson na tela.

Outro ponto impactante é a relação entre Michael e seu pai, Joe Jackson. Com destaque para a atuação de Colman Domingo, que entrega uma performance intensa e muito marcante (acreditem, fiquei com ainda mais ranço do pai dele kkkk).
A dinâmica familiar é retratada de forma dura e sem romantização. O que poderia ser interpretado como disciplina artística se revela, ao longo do filme, como controle rígido, cobrança extrema e muita pressão psicológica. Isso nos ajuda a entender como a busca pela perfeição de Michael é algo que vinha sendo construída desde a infância. Não como escolha, mas como forma de sobrevivência emocional.
Outro ponto é a forma como a fama distorce tudo. O filme levanta uma questão importantíssima: até que ponto o público realmente conheceu Michael Jackson… e até que ponto apenas consumiu sua imagem?
Essa reflexão torna a experiência ainda mais sensível e desconfortável – no melhor sentido possível.

Por limitações legais, muitas partes da vida de Michael não estão presentes. E, indo ao contrário de muitas críticas, não achei que isso enfraquecesse o filme. Porque o objetivo nunca foi contar tudo, mas sim escolher um recorte sensível: o de um artista gigantesco visto através do seu lado humano.
E, na minha humilde opinião como fã de longa data, foi o mais honesto a se fazer depois de tudo o que ele viveu, incluindo as duras críticas e acusações ao longo de sua vida.
O filme se posiciona, ainda que de forma sutil, contra a lógica do sensacionalismo. Para a crítica que prefere o ruído dos tabloides ao brilho do palco, fica um aviso implícito: um ícone não é reduzido a fofocas. O que permanece é a arte, o suor, a disciplina e a busca obsessiva pela perfeição. Os momentos ligados à era do álbum Bad e à icônica Bad World Tour reforçam isso com força. É ali que a genialidade de Michael se manifesta em sua forma mais pura: no palco.

No aspecto técnico, “Michael” se destaca por uma produção extremamente cuidadosa na reconstrução das diferentes fases da vida de Michael Jackson.
A direção de arte é um dos pontos mais fortes do filme, recriando cenários, figurinos e ambientes com atenção minuciosa aos detalhes, sem cair em artificialidade ou exagero. A maquiagem e caracterização também merecem destaque, especialmente nas transições de idade. Há um trabalho evidente em preservar a identidade de Michael ao longo do tempo, respeitando suas feições e evolução visual de forma natural e emocionalmente coerente.
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No fim, “Michael” não é um filme sobre encerrar uma história, mas sobre revisitar uma presença. Ele não tenta definir Michael Jackson, e talvez nem devesse. O que entrega é algo mais raro e sensível: a empatia.

Não se trata apenas de uma cinebiografia, mas de uma reflexão sobre fama, infância, pressão e genialidade. Sobre o peso de ser visto por todos e compreendido por poucos. E, acima de tudo, sobre um artista que continua sendo maior do que qualquer tentativa de tradução. O filme estreia hoje, dia 23, nos cinemas. Vai perder?
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Rapha Reis
Vim parar na Terra por um bug no sistema e sigo tentando parecer uma humana funcional (com certo sucesso, na maioria dos dias). Viciada em explorar novos cantos do planeta, adotar gatos que claramente me escolhem e usar o Fortnite como terapia alternativa. Meu gosto musical é um caos cuidadosamente selecionado e minha cozinha é quase um laboratório - com menos explosões, eu juro. Minha carta de Hogwarts nunca chegou, então me instalei no Instituto Xavier… mesmo que minha moral seja um pouco questionável (mas sempre carismática).
