
- by Joao Paulo
O cinema de arte é aquele que chega mais próximo do que o público pode ter da contemplação do que é a sétima arte. Muitos filmes de drama normalmente dirigido por diretores renomados, trazendo estes tipos de longas como um experimento de técnicas para entregar obras únicas capturando a verdadeira essência do cinema para contar histórias as vezes simples, mas carregadas de complexidades.
Dito isto, a diretora Maura Delpero (Maternal) consegue representar todos estes elementos citados anteriormente, na sua premiada obra “Vermiglio – A Noiva da Montanha” (Vermiglio, 2024), que conta a história desse vilarejo de mesmo nome localizado numa cadeia montanhosa no interior da Itália no período de 1944. A vida pacata do lugar é mudada com a chegada de um estranho, Pietro (Giuseppe De Domenico), um desertor que se apaixona pela filha mais velha de um professor local, acabando por impactar a vida de todos que habitam aquele lugar.
A narrativa bebe muito dos filmes italianos clássicos e a diretora faz questão de mostrar que suas maiores inspirações vão desde Frederico Fellini até Roberto Rosselini, trazendo uma narrativa contemplativa, paciente, com tomadas e enquadramentos fixos, deixando que os personagens contem a história, com uma edição que privilegia um cinema que equilibra o que é mostrado trazendo dualidade ao que está sendo narrado em conversas sussurrantes na calada da noite ou durante o dia, enquanto a câmera trabalha em mostrar a reação dos personagens aos acontecimentos.

Desta forma, fica claro que “Vermiglio” não será um filme que irá agradar a todos, mas pode ser uma descoberta prazerosa para aqueles que se permitirem olhar para história desta comunidade tradicionalista e patriarcal italiana que vai tecendo o cotidiano da família de Cesare Graziadei (Tommaso Ragno), um professor rígido, casado, com quase uma dezena de filhos que seguem a risca os deveres e obrigações estabelecidos naquele lugar.
O roteiro trabalha muito pelo ponto de vista de Lucia (Martina Scrinzi), que se deslumbra por este forasteiro no seu pequeno conto de fadas de casar e formar uma família. Enquanto isto, em outros momentos, a narrativa muda seu foco para a irmã mais nova Ada (Rachele Potrich), que testemunha a vida levada pela sua família e seus irmãos, revelando posteriormente um caminho oposto ao que as mulheres tradicionalmente seguem na comunidade.
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O filme tenta traçar uma crítica social mostrando pelo olhar feminino destas diferentes gerações de mulheres revelando seus anseios, tristezas e o peso que carregam para seguir as determinações da mão de ferro patriarcal que guia esta sociedade, enquanto enfrentam dores diárias, seja através da perda de um filho, seja no papel de esposa, seja por uma desilusão amorosa, ou até mesmo a liberdade de ser o que quiser em meio a um lugar tão conservador.
Em muitos aspectos, Maura consegue nos atingir em cheio e de forma assertiva com estes dramas familiares que possuem uma simplicidade, mas ao mesmo tempo mostra que no meio de toda essa estrutura engessada da esfera social de seguir rituais de namoro, casamento e constituição de família, nem sempre saem como planejado e na maioria das vezes, as mulheres tendem a sofrer mais dentro do anseio de cumprirem seus papéis, ao mesmo tempo que buscam um mínimo de felicidade.

O fato é que “Vermiglio” é uma complexa história geracional que possui um ritmo mais cadenciado, exatamente para que o expectador reflita em cima do que é mostrado pelo olhar desta família e como a complexidade humana faz com que suas vidas, mesmo traçadas, tomem rumos diferentes.
A trama se beneficia muitos dos aspectos técnicos da fotografia bem trabalhada e da trilha sonora bem inquietante que tem como objetivo enfatizar o isolamento da comunidade, ao mesmo tempo que reverbera no vazio existencial dos próprios personagens, com uma grande ênfase nas mulheres de todas as gerações que habitam ali, sufocadas em meio aos seus desejos e ambições.
De uma forma geral, “Vermiglio – A Noiva da Montanha” é um filme que traz um estudo de personagem explorando o tradicionalismo italiano nos anos 40 através de uma comunidade isolada de uma forma bastante sensível e delicada, mesmo que o resultado seja melancólico e triste. O filme não foi feito para grandes públicos, porém nada impede que para aqueles apreciam um bom e velho cinema de arte, seja surpreendido por esta obra italiana que vale a pena, pois encanta pela simplicidade, te pega pela complexidade da temática e nos ganha pelas ótimas reflexões que surgem quando os créditos começam a subir.
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Joao Paulo
Sou Engenheiro Eletricista formado, mineiro, blogueiro nas folgas, super fã de filmes, séries e animes. Apaixonado por Marvel, simpatizante da DC, grande fã de super-heróis no geral. Eu vou ser o rei dos Piratas.