
É sempre complicado falar sobre Superman . A história já virou quase senso comum: um alienígena enviado por seus pais para a Terra, criado por um casal de fazendeiros, que vira jornalista e salva o mundo usando capa, força sobre-humana e um par de óculos como disfarce. Mas James Gunn, mesmo apostando em uma narrativa clássica, entrega o filme do Superman que a gente precisava ver hoje.
Isso não significa que o longa seja uma revolução cinematográfica. Está longe disso — e tudo bem. É um feijão com arroz bem temperado: tem ação, tem crítica social, tem um protagonista carismático e cenas envolventes. E, principalmente, tem uma questão central que ressoa forte: o problema não é o Superman — são os humanos.
Um dos pontos mais interessantes é a inocência genuína do Superman (David Corenswet). Ele se importa com tudo — até mesmo com robôs, que para ele merecem consideração ética. É esse senso de empatia que o distancia não apenas dos vilões, mas também das estruturas de poder da Terra. Enquanto Lex Luthor (Nicholas Hoult) ostenta uma careca que parece ter sido polida à base de maldade, o Superman carrega no rosto a bondade quase desconfortável para um mundo tão cínico.

A caracterização dos atores funciona bem no geral. O elenco entrega atuações convincentes, mas algo me incomoda: a estética impecável demais. As maquiagens estão sempre no lugar, os cabelos perfeitos mesmo depois de voos e lutas. É um detalhe pequeno, mas me tira um pouco da imersão quando tudo parece excessivamente polido.
A grande força do filme está no conflito político. O governo e a imprensa questionam o fato de o Superman agir por conta própria, intervindo em conflitos armados com base no próprio julgamento. Em uma das falas mais provocativas, ele responde: “Não houve vítimas. Ninguém ficou gravemente ferido. As armas foram destruídas e a guerra acabou.” É eficaz, mas é claro que nas relações internacionais as coisas não são tão simples.
É justamente aí que o roteiro injeta uma tensão interessante entre o Superman e Lois Lane (Rachel Brosnahan), com direito à primeira briga de casal por divergências diplomáticas. Ao mesmo tempo, Lex Luthor manipula a opinião pública com um vídeo supostamente impossível de ser adulterado — o que, sinceramente, não me convenceu. A adesão rápida e homogênea da população à narrativa fabricada me pareceu forçada, mesmo com as “explicações” técnicas oferecidas.

Mas o ponto mais afiado do filme está nas entrelinhas: a imprensa tem poder — e tem responsabilidade. O roteiro oferece alfinetadas claras ao cenário atual de desinformação, deepfakes, uso de bots para espalhar ódio, e distorções convenientes de políticos. O Superman atua com os punhos, mas Clark Kent luta com palavras. E o filme deixa claro que esse lado também importa.
Lois Lane levanta uma crítica válida sobre a ética de Clark ao entrevistar sua própria “identidade secreta”, mas esse detalhe, em vez de enfraquecer, humaniza a dualidade do personagem. Ele está nos dois lados do campo: no soco e na escrita.
O ponto mais fraco do filme, na minha visão, é o excesso de piadinhas e alívios cômicos. Talvez por conta da classificação indicativa, o roteiro exagera no tom leve. Mas é possível falar com o público jovem sem subestimar sua inteligência. Algumas dessas piadas simplesmente quebram a intensidade de momentos que poderiam ser mais densos.

Essa talvez seja a pergunta central do filme. Superman tem humanidade? E a resposta, com todas as letras, é sim. Superman não é humano biologicamente, mas sua empatia é mais humana do que a de muitos. Ele quase perde o controle com Lex Luthor por ter sequestrado seu cachorro. Enquanto isso, políticos mandam matar sem hesitar por puro capricho e sede de poder.
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Esse contraste entre superforça e superconsciência torna o filme mais relevante do que parece à primeira vista. Em tempos de manipulação de narrativas e colapsos éticos, Superman nos lembra que poder, por si só, não significa justiça — e que ter o poder de destruir não justifica deixar de cuidar.
Superman não é uma obra-prima, mas é um excelente filme. James Gunn soube trazer para a tela um herói conhecido por todos, colocando-o no centro de discussões que envolvem ética, diplomacia, imprensa e humanidade. Não vai reinventar o gênero, mas entrega uma história que vale ser assistida — e refletida. Recomendo sem medo.

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Nathalia Souza
Artista, tradutora, animadora, programadora e ainda com formação em mecâtronica e marketing, sou uma menina que não sabe bem o que quer da vida. Emo de carteirinha, vivo indo em shows e eventos para aumentar minha coleção de memórias. Vivo no mundo da lua, e talvez seja por isso que me considero astronauta.