
Imagine viver num lugar onde o dia começa cedo, termina tarde e a luta por dignidade é diária. Agora imagina traduzir isso em traços preto e branco, com um ritmo que te prende do início ao fim. Pois é exatamente isso que Morro da Favela, a HQ de André Diniz, faz com maestria.
A história por trás da história
A HQ é baseada na vida de Maurício Hora, um fotógrafo nascido e criado no Morro da Providência, no Rio de Janeiro — o primeiro morro a ser chamado de “favela” no Brasil. Mas esquece aquela ideia romantizada ou estereotipada das favelas. Aqui, a coisa é real, dura, mas também é cheia de humanidade. André transforma a trajetória de Maurício em uma narrativa visceral, que vai desde o abandono familiar até a arte como redenção.
Preto no branco
O traço da HQ é cru, direto e impactante. Totalmente em preto e branco, o estilo me lembrou bastante as xilogravuras nordestinas. A ausência de cores aqui não é um problema. A sombra vira personagem, o contraste mostra os abismos sociais, e cada página tem uma força incrível, que a Darkside Books — já conhecida por suas edições de altíssima qualidade — traduz com em uma impressão impecável.

O mais incrível é como a arte aparece como instrumento de resistência. Maurício, que cresceu em meio ao tráfico e violência, encontra na fotografia uma forma de enxergar o morro com outros olhos — e fazer o mundo enxergar também. A HQ faz questão de mostrar as contradições: a beleza e o perigo, a alegria e o medo, o abandono e a solidariedade, com ousadia.

Fora da zona de conforto
Se você curte histórias que te tiram da zona de conforto — pelo menos literária —, Morro da Favela é pra você. Não por ser em formato de HQ ou uma biografia em quadrinhos — é uma história que não se encontra comumente pelos livros. É quase um documento, uma aula de empatia e um baita exemplo de como a arte pode transformar vidas. É daquelas leituras que ficam com você por dias, fazendo ecoar perguntas importantes e perceber detalhes da história só depois de refletir um pouco.
A nova edição da DarkSide Books conta com uma introdução exclusiva e dois posfácios em quadrinhos — feitos pelo autor —, além de uma galeria de fotos tiradas por Maurício Hora.
Leia também:
Me diz aí, você gosta de HQs que fogem dos temas de super-heróis? Não deixe de nos acompanhar no Instagram!
Miguel Felipe
Geek raiz, analista de sistemas, jornalista por paixão e artesão nas horas vagas. Especialmente viciado em café, livros, tecnologia, histórias em quadrinhos, videogames e ficção científica. De cabelo bagunçado, sempre com fones nos ouvidos, um livro na cara e All Star nos pés.