Review | Orwell 2 + 2 = 5

Orwell 2 + 2 = 5 estreou nessa quinta (12) nos cinemas, e é aquela experiência que começa como filme e termina como alerta. O documentário acompanha os últimos meses de vida do escritor a partir de trechos dos diários dele, mas não fica preso só à biografia. Ele constantemente conecta aquelas reflexões com o mundo (o da época e o de hoje), e isso cria um efeito meio desconcertante. Achei um pouco longo, mas passa rápido, porque a narrativa funciona como um lembrete constante de que muitas das preocupações dele permanecem assustadoramente atuais.

Foto/Reprodução: Orwell 2 + 2 = 5.

O documentário costura a obra do Orwell com imagens e acontecimentos recentes. 1984 aparece bastante, tanto em cenas de diversas adaptações, quanto em citações diretas, sempre acompanhado de paralelos visuais com regimes políticos reais (e atuais). O mesmo acontece com A Fazenda dos Animais, especialmente quando discute manipulação de massas e a facilidade com que narrativas autoritárias ganham força. Tudo entra de forma orgânica, mas ainda assim dá aquela sensação incômoda de reconhecer e, mais do que isso, repetir padrões.

A construção do documentário ajuda bastante nisso. O diário de Orwell aparece em narração, claro, mas acompanhado de muitas fotos pessoais, vídeos, arquivos familiares e registros históricos. Esse material deixa tudo mais próximo e vai além das ideias políticas ou literatura, como se estivéssemos conhecendo o autor por meio de suas próprias palavras, enquanto sua saúde se deteriorava.

Foto/Reprodução: Orwell 2 + 2 = 5.

Na parte mais explicitamente política do filme, que pra mim é onde ele mais provoca, ele cita figuras atuais como Donald Trump, Vladimir Putin e Benjamin Netanyahu pra mostrar como certos discursos e estratégias de poder continuam muito próximos do que George Orwell já alertava décadas atrás.

E não é neutro: esses paralelos vêm, em geral, acompanhados do lema geral do Partido de 1984, Guerra é paz. Liberdade é escravidão. Ignorância é força”. Como que para ilustrar, tem uma hora em que um apoiador do Trump diz que continuaria ao lado dele, mesmo se o presidente americano cometesse um assassinato nos degraus da Casa Branca. E esse é apenas um de muitos depoimentos que aparecem no documentário.

O efeito geral é meio indigesto no melhor sentido possível. Você sai pensando que talvez as distopias não sejam previsões exageradas, mas descrições recorrentes de comportamentos humanos e políticos. O filme não diz exatamente que estamos vivendo um “1984”, mas também não deixa muito espaço para conforto. A sensação é mais de ciclo do que de progresso linear.

Foto/Reprodução: Orwell 2 + 2 = 5.

Sobre a duração, o filme é um pouco longo, mas o ritmo funciona muito bem. Não senti que o documentário estava enrolando ou repetindo ponto. Pelo contrário: as informações enriquecem, misturam reflexão, informação e impacto emocional sem ficar cansativo. É o tipo de filme que exige atenção, mas não te perde no caminho.

Pessoalmente, saí com vontade de reler Orwell e, mais do que isso, com aquela certeza renovada de por que ele continua sendo discutido em escolas, universidades e debates. Não é só pelo valor literário, é porque os temas continuam voltando. Com novos rostos, mas a mesma estrutura básica de poder, controle e manipulação.

No fim das contas, não é um documentário confortável, nem acho que essa seja a intenção. É um filme que provoca e inquieta, gera quase uma sensação de tapa na cara. E talvez essa seja a melhor homenagem possível ao Orwell: ele nunca escreveu para tranquilizar ninguém.

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Dani Goldenberg

Sou formada em Letras e passei 9 anos trabalhando em escolas, mas fugi para o marketing, então agora sou gerente de projetos, o que geralmente significa "babá de adultos". Meu quarto tem livros demais e eu tenho esperança de que um dia vou ler todos. O dinheiro que não vai para eles costuma virar ingresso de show, viagens, comida boa e qualquer coisa relacionada a gatos. Minha vibe é 50% gótica e 50% princesa do glitter, estou aprendendo a ler tarot e sou uma cantora de chuveiro extremamente dedicada. Minha personalidade foi moldada por filmes dos anos 2000, Disney Channel e pelos livros da Meg Cabot, especialmente A Mediadora. Meu traço tóxico é discutir com pessoas que eu conheço para defender pessoas que eu não conheço, então fica o aviso: nunca fale mal da Pink perto de mim.

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