- por Gabriele Miranda
Existe uma característica muito interessante nas pessoas depois que elas morrem. É impossível elas se comunicarem com os outros do lado de cá. Mesmo assim, Brás Cubas desdenha de sua própria morte ao contratar um detetive para investigar a sua morte. Ou pelo menos, é esse o objetivo no início.
A Investigação Póstuma é um jogo de aventura, casual e indie. Desenvolvido pela Mother Gaia Studio e distribuído pelas CriticalLeap e Infini Fun. Foi lançado em 31 de março de 2026 e está disponível na Steam. Depois de recebermos uma carta assinada pelo então falecido Brás Cubas, um loop temporal nos prende e revivemos o mesmo dia várias vezes até que o mistério seja solucionado.
Nós interagimos com vários personagens que tiveram alguma ligação (geralmente negativa) com Brás e o encontraram no dia de sua morte. Machado de Assis, escritor negro e grande nome do realismo brasileiro (1880–1900), inspira todos os personagens através de suas obras. Além disso, nessa adaptação, o jogo mistura e recria obras como As Memórias Póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro, O Alienista e Quincas Borba.
A história da nossa trama
Estamos no Rio de Janeiro de 1937. Acordamos em nosso escritório, caindo da cadeira, ouvindo um burburinho na rua e dando de cara com uma carta de nosso cliente. Ao sair do prédio, aliás, podemos ver a polícia investigando um beco, onde encontraram o corpo de Brás Cubas. A partir daí, passamos o dia tentamos coletar pistas, interrogando pessoas e buscando algum sentido em tudo o que acontecia. Até que o relógio toca a meia noite e encontramos com nosso cliente no limbo.
Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico com saudosa lembrança estas memórias póstumas.
Ele nos explica sobre o looping temporal, e nesse espaço, analisa a investigação conosco, nos dá dicas e faz seus comentários sarcásticos e filosóficos de acordo com os avanços da nossa busca pela verdade. Nesse meio tempo, conhecemos sua irmã, mulheres que foram seus amores, homens cuja relação oscilava entre a confiança e a rivalidade. Então, chegamos até a questionar, se nosso cliente realmente foi a vítima da história.

Características da Gameplay
Apesar de ser um point-and-click, A Investigação Póstuma possui uma gameplay muito variada, com várias features que enriquecem a experiência e imersão nesse universo. Algumas delas são:
- Puzzles: uma das partes mais divertidas do jogo. Desde preparar bebidas específicas de acordo com as preferências dos personagens, cortar flores para montar um buquê premiado (achei essa difícil), até arrombar portas;

- Interrogar suspeitos: Ao todo são 14 suspeitos, todos conectados entre si, com rotinas próprias durante o dia e que dependem, muitas vezes, de itens e pistas, além de diálogos com outros personagens, para que a gente consiga entender toda a história daquele personagem;

- Ajudinha da vítima: Mesmo deixando a gente “num mato sem cachorro”, Brás Cubas ainda nos dá uma certa orientação sobre os próximos passos na investigação. Podemos seguir ou não, pois as tramas não são lineares, mas são coisas que terão de ser feitas cedo ou tarde;

- Loop Temporal: Esse é o pulo do gato nesse jogo. Afinal, ao dominar o looping, aprendemos comportamentos, conseguimos influenciá-los e podemos agir de maneiras diferentes. Dessa forma, é a performance dentro do looping que vai, no fim das contas, determinar o sucesso da investigação.

Opinião
Uma das primeiras coisas que fez eu já gostar de cara desse jogo foi essa mecânica do looping temporal. Além de me lembrar Majora’s Mask, esse é um recurso que dá aquele gás de ficar tentando de novo e de novo, sendo cada vez mais estratégico. Sendo assim, a minha experiência com esse jogo foi muito boa. Aliás, também me deu muito orgulho da nossa produção artística.
Fiquei pensando como esse jogo poderia ser uma introdução ou um convite para as gerações mais novas. Essa é uma ótima forma delas terem acesso a literatura brasileira clássica e ao mesmo tempo, valorizar o mercado de jogos nacional. Eu fiquei admirando as artes, fazendo teorias, lembrando das músicas em momentos aleatórios do meu dia.
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De fato, o jogo fez parte de mim e da minha percepção. Não só me trouxe reflexões, mas também conseguiu me fazer sentir saudade da minha professora de literatura do ensino médio. Principalmente aquela lembrança dela puxando o pé da turma para ler Machado de Assis.
Eu meio que terminei o jogo depois de 58 loops. Imagina o coitado do detetive vivendo o mesmo dia 58 vezes, tadinho. Ainda vou jogar um pouco mais para poder pegar todas as conquistas. Mas essa é a ideia do game.
Vale a pena comprar? Eu vou gostar?
Vale muito apena adquirir o jogo. Por incrível que pareça, você nem vê a hora passar de tanto que você fica envolvido na história. Mas é importante avisar que, apesar de não ter nenhuma imagem explícita, não é recomendado para todos, principalmente crianças. Se você possui alguma sensibilidade relacionada a temas como assassinato, morte ou questões de saúde física e mental, é de bom tom tomar um certo cuidado. Fora isso, é uma obra que deve ser muito apreciada e falada.
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Gabriele Miranda
Audiovizueira pela FAPCOM, adquiri habilidade de fazer bonecos se mexerem pelo Senac Lapa Scipião. Multi-instrumentista e guitarrista na banda Antena Loka, sou pan, vegana e gateira. No tempo livre, estou jogando em algum emulador, andando de patins ou criticando o capitalismo. Talvez eu encontre algum planeta onde me sinta melhor.
